Os "Abridores" de Valas

Explorar Sítio
MUNDOS

Primeiro vieram os homens das barreiras metálicas; chegaram numa camioneta, descarregaram as grades que amontoaram no alcatrão sujo e em menos tempo do que o diabo leva a esfregar um olho, estenderam-nas a toda a largura da via: por aqui, ninguém passa, era a afirmação implícita. Mas, por via das dúvidas, colocaram a camioneta imediatamente antes das grades, sinalizada com uma placa de sentido proibido; quem tivesse dúvidas quanto ao sinal, ficaria sem elas e seria desincentivado perante a viatura colocada de atravesso. Alguns minutos depois da proeza, os condutores começaram as manobras de inversão de marcha numa via de sete metros de largura: uns vinham e outros manobravam; depois seguiam todos no sentido inverso ao da chegada e davam a volta pela outra rua, usada como parque de estacionamento dos moradores que, tendo garagem incluída no pacote habitacional, acham que dá muito mais trabalho acertar com a viatura na entrada, sem roçar no portão, do que estacionar na via pública.

Passados alguns dias a coisa começou a tornar-se aborrecida; os moradores com falta de pontaria não refinaram procedimentos e, com o aumento do tráfego, agravado pelos ziguezagues de desvia aqui e espera ali, a rua ficou muito mais animada e mais colorida; quanto aos condutores, continuavam a fazer as mesmas manobras de inversão de marcha junto às barreiras de protecção da obra, na outra rua, aquela por onde habitualmente faziam o seu trajecto. Agora já não desincentivados pela camioneta atravessada mas sim pela rua esventrada em consequência das dentadas metálicas da máquina cavadora.

Como quem não quer a coisa e estranhando o comportamento dos condutores, que insistiam em seguir por aquela rua, tomando-a oitocentos metros mais atrás, para, nos mesmos metros mais à frente mostrarem a sua perícia em manobras de retrocesso, tirei-me de cuidados e fui esclarecer-me: “Será que esta gente corta uma estrada sem sinalizar a obra, no devido local; isto é, no início da via”?! Mas não, olhando com cuidado, a placa lá estava, meio envergonhada, é certo, porque disfarçada contra um poste de iluminação pública, mas estava. Podia até nem ser – não era – a sinalização indicada; mas os homens das grades tinham colocado no início da via uma placa sinalizadora de estrada sem saída. Ninguém olhava para a dita-cuja; e a situação manteve-se durante cerca de um mês.

Entretanto as obras terminaram; os homens das grades foram embora, levaram com eles a máquina cavadora, as grades e a camioneta e deixaram o ventre da rua coberto de terra e de pedras que os carros, cada um à sua maneira foram fazendo saltar; daí por mais um mês haveriam de vir os homens do alcatrão para, numa tarde e à pressa, cobrir em jeito de remendo, a vala que outros tinham aberto. Deixaram uma belíssima lomba em jeito de duna, mas fizeram o trabalho em pouco tempo!

Menos de um mês após a reconstrução – mal feita – da via, chegarem outra vez os homens das grades e voltaram a cavar quase no mesmo sítio; esventraram os passeios, e a rua de lado-a-lado e lá estão de novo as grades.

Sem pretender questionar as mexidas do subsolo para a colocação ou reparação de infra-estruturas; há no entanto uma metodologia que, entendo eu, deveria ser adoptada: quem quisesse ou precisasse de cavar na estrada só o poderia fazer depois de marcação prévia e com consulta à lista de cavadores inscritos. A entidade gestora desta lista – a Junta de Freguesia – encarregar-se-ia de anunciar aos interessados quando e se, poderia começar a “cavação”. Deste modo poderiam ser conjugados interesses, tanto de obreiros como de utilizadores do espaço – valas a céu aberto ao mesmo tempo e remendos simultâneos!

Actualização: 13-Sep-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info