Amigos, Mulheres...e uma Revolução

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MUNDOS

Encontrámo-nos ontem num almoço. Eu, o meu amigo Leal e o Artur, amigo dele. Que por afinidade também é meu amigo; um bocadinho menos, porque ainda o conheço há pouco tempo mas que já conta como tal, ou pelo menos como candidato, atendendo ao meu grau de exigência e mau feitio.

Pouco se falou no início do almoço; nestes casos a fome ou o apetite, a gula ou a voracidade, como melhor se entenda e queira entender, atiraram as amizades e considerações para daí a quase nada se atendermos aos quinze minutos iniciais de manápulas a segurar o entrecosto grelhado, dentes a rapar e beiços a lamber.

O Leal tinha sido multado por excesso de velocidade no dia anterior, perto de Estremoz; ia a cento e vinte e três à hora numa via onde só deveria circular a noventa, no máximo. “Sabe porque é que eu o mandei parar”, “Ora essa, nem faço ideia”, “Excesso de velocidade”, “Mas eu só vinha a cento e vinte”, “Ainda bem que sabe que vinha a cento e vinte”. Sessenta euros. “Paga já ou fico-lhe com a documentação”, “Pago já, pago já” e toca de teclar o código na máquina – Modernices! Foi bem feita, disse eu. Porque ia a caminho de uma tourada, ainda por cima em terras de Espanha.

O Artur – PA – tinha andado na farra na semana anterior e um erro da condutora, às três da manhã, levou a Polícia a abordar a viatura, “Sopre”. E ela soprou. Passava pouco dos zero vírgula cinco mas passava. “Tive pena dela”, disse o Artur, “Paguei metade da multa”. Na viatura viajava ainda outra senhora – o outro “artur” já tinha ficado em casa – mas não investiu em “capital de risco”. “O gajo não tirava os olhos da Fernanda, a Fernanda está cada vez melhor”, disse o Artur, e o Leal, sorrindo com vontade, acrescentou logo de seguida, “Este homem tem com cada aventura, elas sabem umas das outras e até se ajudam”. Eu, timidamente, disse, “Isso deve ser mesmo amor”. Importa dizer que o Artur tinha saído de uma baixa de seis meses devido a um problema na Próstata e estava com receio que o organismo não conseguisse responder com a devida eficácia e eficiência; enfim, aquele receio que todos os homens têm, julgo eu. “Agora estou muito mais descansado”, disse. Pudera!

“Oh, oh Artur” – o Leal a começar a fazer de pica miolos – “Aqui o nosso amigo é que está bem, isto agora na tropa é mulheres por todo o lado”. E lá tive de fazer a minha intervenção de fundo. Porque na tropa as coisas se passavam como nas empresas, porque nas empresas sempre houve mulheres e homens a trabalhar lado-a-lado, onde as pessoas passam muito mais tempo umas com as outras do que com os maridos e esposas e nem por isso (ou por isso?) andam enrolados sempre que calha e quando calha, ora essa, porque é que a tropa e a guarda e a polícia tinham de ser diferentes. “Eu bem as vejo, só a agarrarem-se aos gajos, também, agora, têm de ser elas porque a eles não lhes dá o cheiro” – o Leal continuava a fazer de pica miolos. “E isso é só na tropa, na tropa é por camaradagem, temos uma coisa que se chama espírito de corpo sabe o que é”, “Oh meu amigo eu fui tropa muito antes do que o senhor, sei muito bem o que é isso, camaradagem, está bem abelha. Oh Artur, tu achas que no teu tempo de tropa lhes perdoavas assim”. “Nem nesse tempo nem agora, ha, ha, ha” – este “gajo” é mesmo PA.

A conversa não estava a agradar-me e forcei a mudança, “Isto está bom é para os reformados, não fazem puto e ainda recebem”, “Pois, deve ser, deve; com a miséria – ele disse outra coisa também começada por “m” – de reforma que me pagam, depois de quarenta e quatro anos de descontos, devo estar que é uma maravilha, acha que foi para isto que se fez o vinte e cinco de Abril”?

E o Artur contou a história da madrugada da revolução. Era oficial miliciano e fez parte da coluna militar, comandada por Salgueiro Maia, na madrugada da liberdade.

“Aí está uma conversa interessantíssima”, disse eu; e monopolizei-o para me contar os pormenores da tomada do quartel do Carmo. Fiquei a saber quem tinha metralhado as paredes.

À tarde, consultando o centro de documentação vinte e cinco de Abril, da Universidade de Coimbra, li a entrevista do Capitão, à Fatos e Fotos, conduzida por Adelino Gomes: um verdadeiro fresco histórico.

O almoço tinha, finalmente, valido a pena!

Actualização: 30-Jun-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info