Anjo da Guarda

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MUNDOS

Reuniram-se no Passeio das Tágides; junto ao Tejo.

Os primeiros a chegar foram os Duendes da Floresta. Vieram do Sul, do planalto da Serra Algarvia onde gostavam de divertir-se por entre a vegetação de moitas; estevas; acácias e, sobretudo, medronheiros; cujos frutos colhiam e comiam com gosto porque ficavam cada vez mais alegres à medida que os continuavam a comer. Quando estavam saciados de medronhos e alegres em demasia, deitavam-se tranquilos à sombra das árvores e bebiam água fresca que brotava directamente da terra e corria cristalina e cintilante em regatos, encosta abaixo.

Depois chegaram os Génios da Charneca. Originários, principalmente, dos vales agrestes e isolados do Ribatejo e Alentejo; onde as pessoas viviam muito sozinhas e precisavam de companhia para conversar; uns com os outros, sobre as coisas que não entendiam. Alguns, chamavam-lhes almas do outro mundo; outros, almas penadas e outros, ainda, simplesmente, fantasmas. Mas os que falavam em fantasmas, eram apenas aqueles pretensos sabedores que liam coisas soltas nos livros do oculto entendimento; e gostavam de mostrar sabedoria querendo fazer boa figura entre os da sua gente. Não eram muitos, porque as charnecas eram cada vez menos e davam lugar a campos de cultivo passando a tomar outro nome; os Génios não se davam em campos de cultivo porque eram nativos de terras virgens, onde a água escorria pelas gretas do barro e da lama e do pó e dos buracos do chão. Habitavam entre as moitas, perdidos entre os cardos, escondidos por debaixo das carvalheiras e dissimulados entre a erva da prata; da marcela; das malvas e da carqueja; principalmente da carqueja porque gostavam das suas flores amarelas e adoravam ser perfumados por elas. Falavam com os pastores a quem contavam histórias e ouviam relatos de vida.

Pouco depois, apareceram As Fadas de Cabelos Verdes; andavam por todo o lado e estavam em toda a parte porque a magia, diziam elas, tem de estar sempre presente onde quer que haja um humano que saiba sonhar e imaginar; da imaginação também se vive e é a voar que se alimenta o sonho. Algumas acompanharam os Duendes desde Serra de Algarvia, depois voltaram e esperaram por aquelas que tinham feito companhia aos Génios da Charneca; no fim, todas juntas e disfarçadas entre os flocos brancos das nuvens cinzentas de um céu que para elas era sempre azul porque voavam sempre muito alto, flutuaram em rodopio de sobe e desce; em remoinho afunilado; em faísca de tempestade; em estrela cadente de noite de verão e em chuva de meteoritos com rasto de fogo.

Sem que se fizessem esperar por muito tempo, surgiram os Fogos-Fátuos Encantados. Vinham da terra de ninguém; onde o Sol nunca se punha e onde havia em permanência estrelas misturadas no azul do mar e no azul do céu e no azul do sonho. Porque quando a chama do homem, quer, o mundo fica todo azul e adormece embalado nas asas brancas das águias e das gaivotas que voam sobre as falésias à beira do mar salgado pelo sal das lágrimas de Portugal. Não cumprimentaram os Duendes da Floresta; nem dos Génios da Charneca e muito menos das Fadas de Cabelos Verdes. Entediam que os cumprimentos eram gestos desnecessários que se atiravam ao vento da névoa densa e condensada; que tapava as metas avistadas dos olhares de alcançar. Existiam e viviam isolados, como se fossem lendários eremitas de grutas perdidas em florestas semeadas nos cumes dos montes que formavam serras mastigadas de urzes e de pedras secas com musgos atrofiados entre as moitas da saudade, debaixo da carqueja florida em amarelo que dourava o mato das noites madrugadoras e da saudade que tinham em permanência. Saudade de ser gente. Os Fogos-Fátuos Encantados – assim dizia a lenda – tinham sido noutros tempos e noutras eras, seres humanos de pensamento e visão tão limitada como aqueles que agora habitavam o planeta. Contudo, desgostosos com tal existência mesquinha, decidiram um dia aceitar a mensagem de luz brilhante de uma estrela que surgira há muito mais que muitos anos e os encaminhara em direcção ao mundo dos humanos, acendendo-se aqui e ali em chama de curta e efémera duração, sempre que alguém das suas graças ou favores, necessitava. Nenhum deles hesitou quando as Fadas de Cabelos Verdes, semeando estrelas com as suas varinhas de magia, escreveram no espaço a mensagem e o pedido de ajuda aos meninos; que já não acreditando no critério dos humanos seus iguais, apelavam unicamente às forças do universo e aos seres de inteligência superior que sabia existirem.

Assim que chegaram, atiraram à assembleia um sinal de alegria. Quase todos o fizeram com a mão – direita – excepto alguns que em vez de tal, desenharam um leve gesto com a cabeça, meio envergonhado e disfarçado de timidez; eram Os Sem Abrigo, e tinham, em cada face, o desenho da vida mastigada de noite negra. Mas nenhum dos presentes levou a mal o seu excesso de modéstia e todos retribuíram com o levantar da mão, agitada levemente em agradecimento pela sua simpática e solidária presença.

Chegaram Outros, em grupos de dois; as mãos nos bolsos, os cabelos despenteados e os rostos descoloridos, enrugados de madrugada. Não vestiam roupas de rigor nem estavam perfumados com água de cheiro a jasmim ou a rosas de Maio moço. Hesitaram, olharam uns para os outros como que a pedir incentivo ou anuência para continuar e decidiram finalmente aproximar-se. Baixando ligeiramente a cabeça e com os olhos a ver o chão, disseram boa-tarde e pediram educadamente para cumprimentar o Sol. Que acedeu ao pedido com emoção e, levantando-se, estendeu-lhes um dos seus raios que eles apertaram com força e firmeza. Eram os Arrumadores de Carros; e o Sol disse-lhes comovido, Muito obrigado pela vossa presença. Sem responder com palavras aos agradecimentos do Sol, sorriram e diluíram-se por entre os demais.

Misturados na multidão, sem direcção definida nem rumo certo; nem hora marcada nem sinal de partida; nem meta de chegada nem horizonte de miragem, caminhavam, indiferentes, Os Meninos da Rua; que tinham pedido ajuda ao Sol e a todos os outros seres. Muitos não sabiam ler nem escrever e diziam muitas frases sem sentido porque não conheciam o significado das palavras. Chegaram muito depois de todos os outros seres mágicos mas, como eram Meninos, deixaram que todos chegassem primeiro. O Sol cumprimentou cada um deles com um raio enrodilhado, que lhes inundou de espanto as faces sulcadas de orvalho e maresia; ficaram surpreendidos porque não esperavam que o Sol olhasse para aqueles que dormiam sobre as pedras da rua: sujos; rotos e descalços. Não tinham olhos azuis nem verde-claros, eram tão só olhos negros como as noites sem lua e sem estrelas, tal como os cabelos negros que se perdiam num emaranhado de novelos enrolados sem fio de começo. Um raio enrodilhado e uma carícia na face suja de trovoada, chegaram para iluminar um tudo-nada os olhos negros dos Meninos da Rua. Que disseram, Sempre que o Sol quiser, viremos receber os seus raios.

E o Sol ficou, ao mesmo tempo comovido e entristecido; numa mistura de dor com mágoa, porque sabia que enquanto existissem Meninos da Rua, os seus raios não chegariam a todas as gentes nem a todos os lugares.

Mas haveriam de continuar a iluminar, o Passeio das Tágides, junto ao Tejo.

Actualização: 27-Dec-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info