A Pergunta Perguntada

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MUNDOS

“Ó senhor, posso precurar ma precura”? “Pode minha senhora, faça o favor de dizer o que deseja”!

Foi assim que a senhora, à espera de ser atendida, se dirigiu ao colaborador – naquela altura, apenas, funcionário – disponível de um banco, para pedir informações sobre as suas poupanças. Assisti – também esperava vez para ser atendido – e memorizei; não só pela particularidade da abordagem como também pela simpatia de quem atendia ao balcão. Que percebeu perfeitamente o que a senhora pretendia e lhe transmitiu a informação desejada; num exemplo de grande profissionalismo e respeito por toda a gente em geral e pelas pessoas simples, em particular.

Quando alguém faz uma pergunta, com ponto de interrogação colocado no fim da frase, no local próprio e às pessoas adequadas, ainda que com modos pouco convencionais, má sintaxe ou má semântica, mas que é clara na sua finalidade, esta – a pergunta – é entendida pelo destinatário e devolvida resposta ao emissor. Foi isso que aconteceu quando a referida senhora “precurou ma precura”…

«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»

Esta pergunta, à semelhança da “precura”, também está mal elaborada; mesmo tendo sido criada por pessoas de instrução supostamente superior à da senhora da em causa. Não só porque refere apenas a mulher, marginalizando – desresponsabilizando? - o homem da causa e do efeito; como também, porque mistura o local da materialização do facto com o seu conceito intrínseco. O que pretende saber-se – julgo –, é se as pessoas – nós –, concordam ou não com a despenalização do aborto; independentemente do local onde o mesmo vier a ser praticado – clínica particular; SNS; ambulância, serra do nordeste transmontano ou monte alentejano. Porque esta – segurança, dignidade e condições sanitárias adequadas – é uma questão a jusante da primeira. Não serve, pois, como desculpa, como alguns “sábios” defendem, que deve dizer-se não a uma pergunta assim; mal perguntada. Tal como não serve de argumento dizer sim, porque implica, ainda que de modo apenas implícito, um estabelecimento de saúde autorizado – SNS?

Toda a gente entende o que se pretende da pergunta; duvido mesmo que seja lida na altura de assinalar a opção. Assim sendo, é apenas uma questão de convicção: valores morais e juízos de valor por um lado; dignidade e condições de saúde, por outro. Ninguém – mulher, claro! – vai “desatar” a fazer abortos a torto e a direito só porque a coisa, o acto em si, deixa de ser crime – muito menos comer criancinhas fritas ou grelhadas. É pois, completamente desajustado, julgar este acto como terrorismo, assassínio ou algo com parecenças semelhantes. Quem acredita nas suas convicções, continuará a fazê-lo; não fará abortos nem os defenderá, (ou se os fizer, fá-los-á às escondidas para que ninguém saiba) e estará em paz consigo e com o mundo. Quem, pelas mais variadas razões, precisar de recorrer ao acto de abortar, fá-lo-á por razões que só a si dizem respeito. Mas acredito que apenas o fará, se julgar que essa é, no momento, a melhor solução; independentemente das causas e das consequências. A grande diferença é que deixa de ser crime perante o mundo e os homens.

Não sejamos, portanto, “adoradores de falsos deuses”. É uma questão de convicção e valores morais? É! É uma questão de necessidade e de dignidade? É!

Então que cada um que coloque o “É” onde julgar conveniente; sem acusações e comparações absurdas ou desentendimentos e disfarces desnecessários.

Actualização: 30-Jan-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info