As Bebidas; o Aroma e o "Pladar"

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MUNDOS

Lembro-me do meu Avô António, que gostava muito de contar coisas sobre a vida dele; principalmente histórias passadas na tropa, com o trato dos cavalos e afins, “…E havia lá muitos cães grandes que eram mais cavalos que os próprios animais…”, palavras suas, que não podem ser comprovadas mas que eu não esqueci. Obviamente que os “cães grandes” eram outro tipo de animais que não propriamente os ditos-cujos caninos! Depois vinha a história da alimentação, que na altura se chamava, simplesmente, o comer, “O comer atão não prestava para nada, não tivesse eu a garrafinha de azeite que levava de casa e tinha de comer as batatas sem tempero”. “O comer não tinha pladar nenhum”, acrescentava. Pois é avô, viveu cedo demais – na altura os avôs (e as avós) ainda se tratavam por senhor e o facto de estar, ao momento, a dirigir-lhe a palavra, não implica o uso de modernices –, agora é tudo muito mais apaladado; principalmente as bebidas; longe vão os seus tempos de, “…O vinho atão, esse nem vê-lo”!

Agora já nada é como dantes: sem sabor, sem azeite nem sal, nem paladar, tempero ou aroma. Agora tudo sabe ao que é; e muita coisa ao que não é mas que se força a saber a tal. Começámos, deve fazer década e meia, com a cerveja sem álcool; uma qualquer “boída” verde, a fingir que era cerveja da loirinha, mas que só servia para encher barriga e para dar trabalho ao aparelho urinário; equipamento periférico incluído – utilizando abordagem tecnológica, própria da época.

Essa “desavergonhada” da cerveja sem álcool, nunca passou de uma prima afastada e longínqua da verdadeira legítima que, para além de refrescar gargantas e satisfazer a sede – dantes, matá-la –, provoca interjeições do tipo, “Ahhhh”, fazendo a cabeça andar à roda, à medida que a garganta faz “glu, glu”! A verdadeira loira faz tudo isso, a falsa verde nem por isso. Ainda assim, com maior ou menor disseminação da praga, a invenção ficava-se por aí, na área da falsa maturação de cevada a fazer corar de indignação e de medo o vinho Alentejano que, vendo as barbas da “Sagres” a arder, terá vivido neste chove não molha de um dia poder vir a ser tomado – o meu avô só bebia – sob o rótulo de, “Terras Del Rei Sem Álccol”. Sem álcool, o vinho, claro, porque quanto ao rei, não há registo de família monárquica impedida de tomar o produto que Baco elegeu por preferência.

Mas a coisa é grave; isto é, agravou-se! da tímida cerveja sem álcool da década de noventa, chegámos à era da água com sabores e da cerveja invejosa; a qual, não satisfeita com a aversão ao álcool da sua antecessora, resolveu combater a concorrência com a adesão à polpa de fruta; ao suminho o saber o sumo.

Dizia o meu avô – o outro avô, o José, não é o mesmo, porque eu tive dois – que andou na primeira guerra mundial que, em determinada altura para conseguir matar a sede – hoje, saciá-la-ia (palavra complicada), tinha de estender o lenço – aquele lenço verde, enorme, que os militares conhecem – por cima da água para impedir a ingestão (acto de engolir, nos tempos que corriam) de larvas, que naquela altura se chamavam apenas lagartas, ou minhocas, ou, simplesmente, bichos! e a água era verde e sabia muito mal. Não era incolor, inodora nem insípida; isto é, não sabia a água – acrescento do narrador, o meu Avô só disse que a água sabia mal!

Modernamente agora – isto não dizia nenhum dos meus avôs mas sim um professor que tive em tempos –, temos uma enorme variedade de águas a saber a tudo e mais alguma coisa…até a água, que é a versão mais barata e, sobretudo, a moderníssima invenção da cerveja a saber a fruta. Falta saber se os sumos de fruta vão passar a saber a cerveja (com ou sem álcool, não interessa), os morangos a água destilada, as maçãs a água de azeitonas, os pêssegos a água das malvas e a água dos tremoços a saber a água-mel!

Façam o que fizerem, pessoalmente, só tomo – dantes apenas bebia – aquilo que entender e que gostar; mas, por favor, mantenham o Borba, o Terras Del Rei e o Reguengos, com o seu “pladar” natural; de vinho Alentejano…com álcool, claro!

Actualização: 06-Apr-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info