Ignorância pura com Burrice à mistura

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MUNDOS

O Filipe voltou a questionar-me com perguntas difíceis; daquelas que nos causam algum (bastante) embaraço em produzir uma resposta. Ou porque não a sabemos, ou porque não a temos preparada ou ainda, sabendo-a, não conseguimos estruturá-la de modo a que se torne perceptível.
«Cultura significa conhecimento ou conhecimento significa cultura?»

Feita assim, a frio, às oito da manhã a caminho da escola; filas de trânsito e rotundas embrulhadas em apitos de automóveis, o condutor nem ouviu a pergunta – ou, pelo menos, fingiu que não. Mas o fingimento não dura sempre; e dura ainda menos quando o perguntador não desiste de ser esclarecido.

«Que é que achas?», perguntou após a pausa de silêncio em que era suposto ter escutado uma resposta. «Acho que a cultura se constrói com aquisição de conhecimento», respondi-lhe, após certificar-me que daquela não escapava sem opinar. Julgava eu, que o termo «aquisição de conhecimento», seria por si só suficiente para esclarecer qualquer dúvida sobre matéria cultural e seus processos de consolidação.

«Só é culto quem tem conhecimento?» Sem dúvida, confirmei.

Mas depois, perante o olhar inquisidor de quem não estava convencido – os filhos já não se convencem apenas com declarações de intenções – acrescentei, tentando parecer simpático, mesmo no meio dos carros que não andavam e das rotundas que não circulavam, «O conhecimento adquire-se caso a caso, a cultura constrói-se com todo o conhecimento adquirido.»

Mais ideia menos ideia, continuámos o percurso com troca de pareceres à volta do tema.

Na última rotunda, a quarta de um total de quatro num espaço de mil metros, uma senhora aproveitou a falta de fluidez do trânsito para mostrar que tinha lábios, mãos, baton e rímel; ah! e também um pincelzinho para afagar os olhos e uma escova para enrolar nas pestanas e uma paninho para dar pancadinhas no rosto. Depois mordeu nos lábios – nos dela, claro – ou se não mordeu fez um gesto que eu não consigo descrever mas que era mais um menos, um a acariciar o outro. Satisfeita com a carícia e resultado final, resolveu retomar a marcha, cerca de cem metros atrás do carro que seguia à frente, incentivada pela buzinadela de um camião cujo condutor era impaciente. Por sua vez, o condutor do carro que seguia na faixa ao lado, julgando que o apita o comboio era para ele devido à inocência da conversa telefónica que mantinha na rotunda, respondeu em dobro, ambos insistiram a ver quem tinha a buzina mais potente, botaram braços de fora, fizeram sinais de desentendimento e inventaram nomes para as mães de cada um e para a mulher de cada qual. O condutor do carro, teve de desagrafar o telemóvel do ouvido para conseguir argumentar com o condutor do camião, ainda fez gestos ameaçadores mas não chegou a utilizá-lo como arma de arremesso. A senhora meneava a cabeça da esquerda para a direita, a condenar o comportamento dos outros condutores.

«Raio dos homens que não sabem comportar-se na estrada!»

«E isto, é cultura ou conhecimento?», perguntou o Filipe, referindo-se à troca de incentivos por parte dos dois condutores. «Isto é ignorância pura com burrice à mistura», respondi-lhe!

É a cultura que temos…
…a partir do conhecimento adquirido!

Actualização: 09-Mar-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info