Lição de Cidadania

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MUNDOS

Quando se fala em Cidadania, ficamos com a sensação, mesmo sem grande esforço mental, de que se trata de algo que diz respeito ao comum dos cidadãos, à generalidade da sociedade e ao todo dos habitantes. Ainda assim, se numa primeira abordagem a ideia parece clara e inequívoca, já a sua definição se apresenta como algo de difícil objectividade; sobretudo se tivermos de demonstrá-la a alguém, ou, mais grave ainda, se esse alguém não perceber à primeira e não se deixar convencer com a definição padrão.

A pergunta foi: “O que é a Cidadania”? (Maiúsculas da responsabilidade do narrador!)
A resposta foi: “É um direito do cidadão”; “Pois, mas isso é o quê”, o inquisidor, teimoso na sua falta de entendimento, voltava à carga. Percebendo o conceito, mas incapaz de o explicar de maneira clara a permitir um bom entendimento, convidei o “perguntador” para um pequeno passeio em busca de exemplos concretos.

Logo na primeira rotunda do percurso – passeávamos de carro –, uma senhora, que conduzia um veículo automóvel, modelo 307 CC – omissão da marca por razões óbvias – aproveitou a falta de fluidez do trânsito para mostrar que tinha lábios, mãos, baton e rímel; ah! e também um pincelzinho para afagar os olhos e uma escova para enrolar nas pestanas e uma paninho para dar pancadinhas no rosto. Depois mordeu nos lábios – nos dela, claro – ou se não mordeu fez um gesto que não consigo descrever mas que era mais um menos, um a acariciar o outro. Satisfeita com a carícia e resultado final, resolveu retomar a marcha, cerca de cem metros atrás do carro que seguia à frente, incentivada pela buzinadela de um camião cujo condutor era impaciente. Registámos duas faltas de Cidadania. Por sua vez, o condutor do carro que seguia na faixa ao lado, julgando que o apita o comboio era para ele, devido à inocência da conversa telefónica que mantinha na rotunda, respondeu em dobro; ambos insistiram a ver quem tinha a buzina mais potente, botaram braços de fora, fizeram sinais de desentendimento e inventaram nomes para as mães de cada um e para a mulher de cada qual. Registámos mais duas faltas de Cidadania. O condutor do carro, que teve de desagrafar o telemóvel do ouvido para conseguir argumentar com o condutor do camião, fez ainda gestos ameaçadores, mas não chegou a utilizá-lo como arma de arremesso. A senhora, entretanto, meneava a cabeça da esquerda para a direita, condenando o comportamento dos outros condutores. – Agravaram-se as faltas de Cidadania de cada um dos intervenientes.

“Bem, isto não é Cidadania, pois não”, Confirmado que não era! Seguindo em direcção a um dos muitos supermercados da zona; uns quase Hiper e outros nem tanto, um peão atravessou a via em plena rotunda – segunda do percurso –, obrigando a algumas travagens de emergência e à livre difusão oral de substantivos e adjectivos; ninguém ficou ferido mas obtivemos mais exemplos de falta de cidadania. Mais à frente, um miúdo, ainda “puto”, apanhou o talão de pagamento da bomba de combustível, que o pai se esquecera de guardar no bolso e deixara cair ao chão, inadvertidamente, claro! “Pai, deixaste cair a factura” – acto de Cidadania. “Deixa estar, não é precisa para nada” – acto de não Cidadania!

Já no parque de estacionamento do supermercado, um cidadão sem formação em cidadania, estacionou o “classe E” num dos lugares reservados a deficientes motores; aqueles com o chão pintado de amarelo e com boneco azul desenhado na parede. O senhor não era coxo, nem maneta, nem surdo nem mudo, mas provavelmente via mal, sem ser cego. Na dúvida e para não fazer mau juízo, espreitei para o interior do meio de transporte à procura do dístico azul que identifica a condição do seu utilizador e o autoriza a estacionar em tais locais, mas nada, nem vestígios do dito cujo. Entretanto, ao outro lugar que também estava ocupado, chegou a proprietária do Yaris. Desenvolta e desempenada, entrou com agilidade no popó, sem que se lhe notasse qualquer mazela de natureza motora. Saiu à campeã, libertando o espaço amarelo para futura utilização de outro cidadão…ou não! – Íamos, já, em cerca de uma dúzia de faltas de cidadania, considerando as explícitas e as implícitas.

“Já sabes o que é a Cidadania, perguntei ao meu companheiro de viagem”, “Pelo menos, já sei o que não é”.

Actualização: 28-May-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info