O Serviço Público e a Coisa Pública

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Coisa Pública, entendo eu; é algo destinado ao uso comum dos cidadãos; independentemente de confissões, tendências, simpatias e afins. O uso da coisa, tanto pode ser físico – o utilizador toca-a e manipula-a – como meramente visual e imaginário. Eu posso ir onde todos os outros vão, tocando e sentindo aquilo todos sentem e tocam. A coisa, sendo pública, é pertença de toda a gente e não é propriedade de ninguém; logo, a nenhum dos utilizadores é lícito destruí-la ou alterar-lhe a forma, aparência ou conteúdo.

Serviço Público, entendo eu; é algo prestado por algo ou alguém, em favor da comunidade. E a comunidade, somos nós todos, os utilizadores da coisa pública. Mesmo que não a utilizemos, continuamos a fazer parte da comunidade. Mas isto é apenas o meu entendimento, “uma opinião pessoal minha” que não é, necessariamente, partilhada pelos “eus” de cada um dos outros. Exemplificando – sempre me aconselharam a fazer bonecos para ilustrar as teorias –, não é, certamente, partilhada pela ErreTêPê – Radiotelevisão Portuguesa –; a qual, assumindo-se como prestadora de Serviço Público, tem um comportamento similar à das outras radiotelevisões e à das rádios sem televisão; isto é, move-se no mesmo areal amarelado do binómio audiência/lucro.

Voltando aos bonecos – não consigo fazer desenhos de jeito –, refiro, em concreto, a emissão recente de um programa (entrevista), que atribuiu tempo de antena “à vara larga”, como se diz no Ribatejo, a um certo senhor envolvido em determinado processo, para que do mesmo fizesse uso em seu proveito próprio, na defesa daquilo que para ele é uma injustiça. “Vara larga” é apenas um desenho mal feito de uma expressão idiomática que poderia ser entendida como, à “fartazana”, “àlágarder” ou, num aprumo politicamente correcto, “sem critérios de seriedade e de rigor quanto ao usufruto da coisa pública”.
Não fico melindrado com o facto das estações de televisão, privadas, colocarem no ar aquilo que muito bem entendem e julgam por bem, para atingir o fim para o qual foram criadas: ganhar dinheiro! Mas fico profundamente aborrecido, quando a “minha televisão”, aquela que eu ajudo a pagar através da conta da ÉDêPê, tem um comportamento em tudo idêntico, parecido, semelhante e similar, ao das suas primas mais novas. Quase tão grave como a entrevista de privilégio que distinguiu um diferente entre os outros iguais; num outro programa, o presidente da Radiotelevisão, nem sequer conseguiu explicar e exemplificar, qual o Serviço Público que a mesma presta aos Portugueses; ou será que não presta algum, não presta nada, ou não “presta para nada”?

A Coisa Pública, mesmo em definição mais profunda e não na definição simplista que apresentei, não é, certamente, destinada a este tipo de uso; tal como não é prestação de um Serviço Público de televisão, aquilo que a RTP (escrevi bem destra vez?) fez em matéria de privilégio.

Uma estação de televisão pública, não pode, não deve, não deveria, Nunca, alinhar nas feiras de vaidades da concorrência com o mesmo insano álibi de conquistar audiências e provar que consegue ou conseguiu, atingir alto nível de “share”; tenha este termo o significado que tiver!

E mais as novelas, novelinhas e novelescas…
E mais os ordenados milionários…
E mais os intervalos com publicidade sem fim…
E ser menos Coisa Pública, sem Serviço Público.

Actualização: 06-Apr-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info