"...Vivendo o ruído de cada dia que em cada tarde findada, lhe lembrava o Toque de Silêncio das manhãs que anoiteceram.
Emoção de entardecer, com saudade de madrugada".
Toque de Silêncio, página 313

Posfácio


Não foi fácil a primeira abordagem da obra. Condicionada, à partida, por um mundo que me é estranho, tive que aplicar toda a minha atenção para não perder o fio condutor. O entre cruzamento de várias acções e as histórias paralelas que se vão desenrolando ao longo do livro exigiram-me um acompanhamento permanente. À medida que a leitura se tornava mais fluida e agradável – a que não é alheia a permanente ironia que atravessa a obra e que funciona como um tempero precioso – comecei, lentamente, a integrar-me no universo militar, habitualmente hermético, e a compreender um pouco melhor as relações entre as pessoas.
A designação das personagens por adjectivos é muito interessante, pois permite-nos esboçar o seu perfil mesmo antes de as “ouvirmos” falar. De certo modo, os nomes preparam-nos para o tipo de personagem com que nos vamos deparar porque são personagens-tipo.
Julgo ver neste livro algumas marcas pessoais. À componente militar, objectiva, associa-se uma componente pessoal e subjectiva. E é este jogo de forças que nos vai conquistando em cada página, transformando a leitura de “Toque de Silêncio” num profundo acto de prazer.

Lisboa, Outubro, 2008
Maria Fernanda Nunes

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Sendo o escrever um estado de espírito, creio que para o autor, ainda mais o é.
Umberto Eco diz que ninguém escreve para si próprio. Fá-lo sempre para comunicar com os outros.
Eu concordo com ele mais ainda depois de ler "Toque de Silêncio".
Estamos perante alguém que em estado de espírito algo amargurado (disfarçado por sarcasmo), resolve fazer um exercício de catarse, verdadeira tentativa de purificação emocional, quanto a mim, conseguida.
Li integralmente o texto e considero que não é acessível a qualquer pessoa.
Seria redutor dizer que só seria inteligível para o meio castrense, porque é mais abrangente, destinando-se ao entendimento de certas jogadas políticas, não da Política, embora possam ser aplicadas.
Considero uma boa estrutura de texto e uma descrição narrativa consistente que requer atenção redobrada do leitor porque as personagens adjetivadas assim o exigem, tal como o desenrolar da história com entrosamento de situações e personagens.
É um conteúdo forte, com personagens caracterizadas pelos seus aspectos mais negativos e caricatos até, fazendo tudo um sentido muito próprio e que apesar da tal catarse, deve ter dado um grande gozo a escrever, havendo alturas em que o autor riu a bom rir. Aposto.
Não querendo alargar-me para não enfastiar, quero dizer que:
- Gostei.
- E se lhe apetecer escrever mais, nem hesite. Escreva.
- O que tiver a pôr cá fora, ponha. Faz-lhe bem a si e obriga os outros a pensar.

Colares, Novembro, 2008

José Manuel Faustino

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Quando há alguns anos atrás, tive o prazer de escrever com o autor, em parceria, a obra Mundos, tive a exacta noção que estávamos em presença de um escritor promissor, ou autor-escritor, como ele próprio refere neste texto. Mantendo a originalidade de entrecruzar figuras reais com irreais (ou não), animais que falam – neste texto, figuras das histórias de encantar –, com delírios de prosa poética, o autor consegue surpreender-nos, também, com a sua fácil e inteligente ironia, deliciosa bandeira levantada em direcção ao imaginário de cada um de nós, leitores ávidos de folhear página após página.
Partindo de um cenário já tantas vezes explorado – o universo militar –, este trabalho conjuga, contudo, sensações e movimentos que, só com algum custo, se entenderão com perfeição; é esse, quanto a mim, o maior problema deste livro: perceber o que é que o autor, verdadeiramente, pretende mostrar e comunicar. Ou talvez não, nem sequer pretenda mostrar coisa alguma específica e queira, apenas, que cada um de nós, faça dos personagens e das situações, o que muito bem entendermos e para o fim que desejarmos; é esse, também, o papel do autor: permitir que o leitor descubra por si, aquilo que ele apenas deu a entender.
Que mais dizer, afinal, de um autor-escritor que se move no meio de figuras imaginadas e imaginárias; que confronta os editores com as suas desculpas para não publicarem os livros que lhes são propostos; que eleva aos limites do exagero, um processo comercial de venda de um automóvel (um carro-automóvel); e que mistura uma tão grande mágoa com o espírito de servir que, afinal, consta da sua própria ficha pessoal?
O que é verdade, é que tal mistura resultou; e se faz deste texto uma obra estranha, torna-a, também, sarcástica e ironicamente bela!

Lisboa, Março, 2009
Norberto Elias

Actualização: 19-Jul-2009 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info