As noites e os dias de Lua Cheia

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MUNDOS

Uma amiga perguntou-me há cerca de duas semanas pelo sucesso do meu último livro; tinha finalmente começado a lê-lo, quase um ano depois de ter sido publicado. Disse-lhe que pouco sabia do sucesso comercial porque enfim, aquelas limitações de aceder aos meios de divulgação e mais isto e mais aquilo mas, pelo menos, quem tinha lido gostara – ou pelo menos, disse-me que sim.
E então as televisões, os jornais, as rádios; já mandou “mails”, escreveu cartas, enfim, já fez alguma coisa? Perante a pergunta, apenas sorri e, sem dar a resposta, em concreto, perguntei, por minha vez, Oh Susana – nome fictício –, você, com trinta aninhos, ainda acredita no Pai Natal? Sem hesitar, disse, Ainda gosto de ser surpreendida, sim, confesso, e às vezes ainda o sou, declarou com ar cândido como se não tivesse percebido a minha ironia ou, percebendo-a, fingindo que não.

Ainda no mesmo dia, reenviei uma “bateria” de mensagens aos destinatários sugeridos e obtive como resposta, nada, coisa alguma. Eu, que naquele dia, queria ter voltado a acreditar no Senhor das Barbas brancas, fiquei ainda mais incrédulo. Por isso, sou suspeito quando me pronuncio sobre épocas festivas baseadas em crenças de tradição; como a que se vive actualmente.

Mas ainda assim, de vez em quando, pronuncio-me sobre assuntos tais; porque me parece que devem – e podem – ser opinados, mesmo sem haver comunhão de concordância.

Alguém disse – ou mandou dizer –, faça-se luz. E de repente iluminaram-se as ruas, enfeitaram-se as janelas; coloriram-se as varandas; engalanaram-se os arcos e os arquinhos e as arcadas. Nasceram lâmpadas nas árvores; fios nos portais; serpentinas nas árvores de fingir; brilhantes nos pinheiros de enfeitar; agulhas verdes; bolas vermelhas; caixas com lacinhos; neve de faz-de-conta; sorrisos de esticar e aroma a não sei quê de quase mentira, numa quase verdade de solidariedade suspeita.

Também dizem – diz-se – que tudo isto é magia; prendas, saudade; visita; visitação; abraços, família; jantar; ceia; peru; bacalhau; couve portuguesa; encher a barriga de filhós; gastar o dinheiro que se não tem; oferecer o que de nada serve; receber o que não serve para nada; beber, beber, beber; empanturrar-se com sonhos para curar os pesadelos.

Diz-se, também, que Natal é amor – pena que se ame, apenas, durante duas semanas por ano. Que é, acima de tudo, fraternidade – pena que só se distribuam mimos aos sem abrigo, durante as mesmas duas semanas; quiçá, menos, na própria noite de vinte e quatro de Dezembro.

Nada tenho contra aqueles que gastam os seus recursos em enfeites de natal; esse é um problema de consciência, de crença e de tradição. Numa palavra, é puramente pessoal, de acordo com as convicções de cada um. Nada a dizer.

Contudo, o mesmo já não considero em relação às entidades públicas. Porque estas gastam recursos – públicos – em luzes e brilhantes que não servem, rigorosamente, para o que quer que seja. Não matam a fome; não aquecem os corpos; não garantem tecto, nada. Apenas entretêm o olhar de quem passa, durante os breves momentos em que já passou – beleza efémera de nada num universo de tudo desfeito.

Árvores grandes, gigantes, agigantadas, as maiores; de metal às camadas e aos molhos, cobertas com muitas, muitas lâmpadas que acendem e apagam, porque é essa a função suprema das lâmpadas. É bonito, mas não serve para nada. E, muito pior do que não servir para nada, é facto de ter consumido recursos – dinheiro – que poderia, efectivamente, ter servido para resolver problemas sociais, concretos.

Ou pelo menos, minorá-los; ajudar a resolvê-los.

Se o Natal é apenas isto; se o Pai Natal é apenas isto, então, definitivamente, deixei de acreditar nessas luzes, nesses sons e nessas árvores de brincar; ainda que sejam brincadeiras de gente grande.

Prefiro o feijoeiro mágico!

Actualização: 13-Dec-2005 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info