O Dom de todos Nós

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MUNDOS

Há cerca de um ano, escrevi, neste mesmo espaço, um texto sobre o conceito de Nação e da sua definição como Terra de Antepassados; como sendo a mais completa, mais sintética e abrangente, que até hoje me foi oferecido conhecer. Referi, também, que tal definição havia viajado comigo desde as aulas de história, ministradas pelo docente Pereira de Carvalho, meu antigo professor na disciplina. Até hoje, repito, não encontrei melhor definição para, Nação.

Num dos comentários ao escrito em questão, um leitor, sem concordar ou discordar da definição, «repreendeu-me» devido a alguma ligeireza de linguagem, quando, a dada altura do texto, para falar do primeiro Rei de Portugal, referi apenas Afonso Henriques, sem ser precedido de Dom, que é o seu justo título. Respondendo ao leitor, tentei explicar que, Afonso Henriques, sem «Dom», não ficara a dever-se a menos respeito pelo Rei e figura em si, mas sim e apenas, porque tal fazia parte de um estilo literário que o meu jeito gostava de dar uso.

Digo – escrevo – tentei, porque não me parece ter conseguido; mesmo tendo afirmado ao leitor que o primeiro rei era um dos meus preferidos. Alguns meses mais tarde, num encontro quase casual, deparei com o meu antigo professor de história, a quem referi a crónica, a definição, o meu deslize e o comentário recebido. Levei outro puxão de orelhas: o estilo literário não serve para aligeirar a história nem menosprezar os títulos de quem quer que seja; muitas pessoas para além de um nome, têm um título que deve ser respeitado. Não é uma questão de elegância ou de aristocracia, é uma questão de respeito e de identidade; independentemente da figura, época, simpatia política, feitos, presente e passado. Não andámos todos na mesma escola primária, pois não, perguntou-me o professor, Claro que não, nem tal teria sido possível, respondi, Então, tratem-se as pessoas como devem ser tratadas, concluiu, Fiquei convencido e aprendi a lição.

Mas há outros bem piores do que eu – «…que não parecendo que o são, são aquilo que eu pareço» –, que não aprendem como eu já aprendi; e que tratam as figuras institucionais sem Dom nem dó; sem título nem senhor; nem prefácio, nem prólogo, nem nada. É o João isto; o António aquilo; o Manuel aqueloutro; a Adelaide olho-azul; a Maria «trocópasso» e pronto, andámos todos na mesma escola primária, porque não há distinção alguma entre a assembleia sobre a qual se produz comentário, e notícia anunciada.

Refiro-me, obviamente, às referências que são faladas e escritas pela nossa comunidade jornalística; a qual, das duas, três: Ou têm um enorme grau de familiaridade com todas as personalidades da vida pública e institucional; ou andaram mesmo à escola com tais; ou então não tiveram o professor Pereira de Carvalho como mestre em história. Pode, também, acontecer, que não seja nenhuma destas razões mas tão só e apenas, nunca terem sentido as orelhas a arder por via de um puxão dos leitores ou dos ouvintes.

Julgo que as coisas não podem, nem devem, ser confundidas: Tal como na tropa, a posição de, «À Vontade» não é, «À Bandalhade», o respeitinho continua a ser muito bonito e não é sinónimo de qualquer subserviência, falta de afirmação pessoal, identificação com a «outra senhora» ou outra qualquer conotação que o valha. – Que lhes valha a eles, os ditos-cujos, porque a mim já me ela valeu o suficiente que chegue!

Não é preciso exagerar; mas, se numa entrevista, o visado é tratado por senhor doutor, senhor professor, senhor engenheiro, senhor enfim – enfim, funciona como falta de imaginação para outros títulos – porque é que, à distância, a referência é tão-só, em termos de colegas da primária? Claro que a observação também se aplica às senhoras: senhora doutora, senhora professora, senhora engenheira, senhora juíza. Exemplo: não é a Maria José, é a doutora Maria José.

Não tem nada a ver com democracia, liberdade ou modernidade; tem a ver com respeito e com dignidade.

A Afonso Henriques, o Dom que é dele; aos outros também!

Actualização: 19-Jan-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info