Farrapos de recordações docentes

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MUNDOS

Em tempos, acerca do professorado, escrevi, neste mesmo espaço, o seguinte:

“Professores; bons e maus, assim-assim, muito maus e muito bons, sempre houve e haverá. Mas todos correm o mesmo risco; independentemente do seu grau de profissionalismo, de sapiência e de formação didáctica: serem recordados durante a vida inteira por várias gerações; que deles – e delas, que também são eles, neste contexto – falarão sobre muitas e variadas coisas…”

Continuo a falar deles assim, através dos “farrapos” que me deixaram! 1. Num dia em que a senhora professora perdeu a paciência com um dos alunos e não encontrou à mão a famosa régua que materializava fisicamente a sua fúria, foi a escova de limpar a roupa que “pagou as favas”. Em menos tempo do que o necessário a qualquer diabo para esfregar o olho – dele, claro! – a escova saltou da gaveta da secretária e ficou sem capa; fibras para um lado e tábua para outro. “Estende as mãos”, disse ela. “Ai, ai,” disse ele; ou ela, tanto faz, já não me lembro de quem foi a vítima nesse dia.

2. Uma vez o mestre careca – trabalhos manuais – entrou sala dentro, “desnorteado”, com careca vermelha e tudo, mas não confessou o motivo da fúria. Nós sabíamos perfeitamente as razões; como resposta à sua falta de generosidade relativamente à nossa falta de jeito para trabalhar com madeira, um prego ferrugento agrafou-se por encanto a uma das rodas do VW carocha que lhe servia de meio de transporte. Ninguém viu nada, claro, mas ele soube que não foi apenas azar.

3. Quase no final do Curso, o capitão “Sandokan” exibiu despreocupado e indiferente, pelas ruas da cidade, o traseiro das calças de cor verde-azeitona, carimbado com pó de giz que o apagador, por malvadez, deixou acumulado na cadeira, por acção humana daqueles que não aceitaram a injustiça das suas notas terem sido atribuídas sem correcção dos testes que lhe foram roubados durante a noite. Vingou-se; vingámo-nos!

4. O frade irmão J. atendeu telefonemas durante toda a manhã, vindos de não sei onde e originados não se sabe por quem, porque teve a ousadia de informar os pais de um aluno interno, que este tinha saído do colégio, sem autorização, durante uma certa noite de primavera em que o luar de prata faz o poeta sonhador. Cada vez que levantava o micro auscultador do telefone só conseguia dizer, “Está lá, está lá”. Mas, do outro lado, não estava ninguém!

5. A professora de Inglês, que era um tanto vaidosa e empinada do nariz, teve o azar de escorregar à saída da sala de aula, mostrando toda a brancura libidinosa das suas belas – belíssimas – coxas, porque se julgava “acima da lei” sempre que chamava ao quadro um qualquer de nós; não só para humilhação do nosso não saber – ignorância? –, Como também para provocação dos (quase) dois palmos de perna que mostrava quando as traçava uma sobre a outra em forma de quatro – pé direito apoiado no joelho esquerdo. Naquele dia, ficámos a saber que usava, aquilo que alguns duvidavam que usasse.

6. Um dia, eu mais outro, encontrámos numa das ruas de Abrantes, uma antiga professora de Português e de Matemática (é verdade, Português e Matemática!), que em tempos nos tinha dado cabo do juízo com os cantos dos Lusíadas e mais as equações, inequações, álgebra e afins. Nem olhava para nós mas a gente reconheceu-a, “Olá professora”, disse o outro; porque eu nunca tive muito jeito para meter conversa e corava sempre que alguém me dirigia a palavra sem estar à espera. “Olá”, disse ela, “É comigo?”, “Sim, não nos conhece”, repetiu o outro porque eu continuava vermelho como um pimentão maduro e estes quando estão assim não falam – e quando estão verdes também não. “Realmente…não”. “Colégio La Salle, anos lectivos tais e tais, o B. e o B.”, disse o mesmo de sempre; e eu continuava de olhos pregados no chão da calçada, rente do “muro do Bruno”. “Ah…”, abriu a boca de espanto e fez-se-lhe luz na cabeça encarrapitada em cabelos prateados, “O B. e o B.” e, visivelmente emocionada, abraçou-nos; um de cada vez, claro! – Um dos B’s era eu e é fácil saber a que corresponde, o outro B., por razões éticas, não o posso mencionar; mas desde finais da década de setenta que lhe perdi o rasto. Choramingámos os três; nós mais ela, a professora, que já estava retirada e nós o que é que fazíamos? Estávamos na tropa, professora, já tinham passado uns anos, a gente tinha crescido!

É assim que os recordo; não me vem à lembrança qualquer tipo de agressão física como as actuais “modernices”…

Actualização: 30-Jun-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info