Feridas de Guerra

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MUNDOS

Olinda é uma Senhora com quase noventa anos. Cabelos brancos, faces levemente coradas num rosto de aparente e absoluta tranquilidade. Move-se devagar mas com firmeza; e fala com a segurança e a lucidez, próprias de quem recusa desistir só porque o factor idade é cada vez mais o companheiro que não foi convidado a estar presente. Mas é sobretudo no olhar, na expressão e no tom de voz, que reside o encanto maior: o timbre da saudade sobre o passado que a frescura do presente mantém. Fala de conhecimentos comuns, de situações vividas e de pessoas que gostaria de rever, deixando transparecer, aos poucos, que pretende «fugir» ao principal motivo que a levou ali.

Olinda é viúva e os filhos morreram sem deixar descendentes. Não tem irmãos, não tem família mas não está sozinha; ou, pelo menos, não está quase sozinha: a proximidade com uma corporação de bombeiros, empresta-lhe algum do alento que a mantém em pé e que a mantém de pé, provando que o velho ditado, «enquanto há vida há esperança», não é apenas uma frase solta e sem sentido, pronunciada em tons de vazia sonoridade. Quando ouviu falar no projecto «Recolha», uma iniciativa destinada a tratar, catalogar e preservar a memória daqueles que, directa ou indirectamente, estiveram envolvidos na Guerra Colonial, de imediato «respondeu à chamada», prontificando-se a entregar o espólio de um filho que perdeu em Moçambique, durante a operação «Nó Górdio».

Olinda falou sem mágoa e sem rancor; não lhe ouvimos a mais leve referência ao País do passado, ao regime político que muitos teimam em branquear e eleger como os tempos áureos do País que «Afonsos e Joãos» ergueram e ajudaram a engrandecer. Em conversa directa com o antigo comandante de companhia do seu filho, convidado, propositadamente, a estar presente, à medida que pergunta por nomes, vai também, ela própria, fornecendo informação sobre o universo de conhecimentos comuns, retardando, ou tentando retardar, o momento inevitável. O homem que viu o filho morrer está ali, à sua frente, mas Olinda não pergunta pormenores, apenas refere o postal que o mesmo lhe enviou na altura, e que agora faz parte do acervo histórico entregue.

Aproveitando uma pausa, o presidente da Liga dos Amigos do Arquivo Histórico Militar, instituição que tutela o projecto Recolha, mostra-lhe o espólio que, há algumas semanas atrás, Olinda decidiu entregar para ajudar na preservação da nossa memória colectiva: tudo está devidamente acondicionado, arquivado e catalogado. Olinda olha, e pela primeira vez a voz treme, os olhos, de um olhar até então tranquilo e neutro, deixam inundar-se de vestígios húmidos de algo que não chegam a ser lágrimas; resiste ao desespero e tenta resistir à emoção. No interior do fugaz silêncio, limpa os olhos e retoma a fala; ao rever a fotografia emoldurada – agora documento histórico – de um filho perdido em defesa (?!) da Pátria que lhe foi ingrata, arranja, ainda, forças, para chamar à atenção sobre o apelido que constava na lombada da pasta, «Não é um G, é um C», disse Olinda.

Foi um privilégio ter podido conviver, tão de perto, com uma pessoa dotada deste nível de humanidade, tranquilidade e segurança. De uma Mulher que não deixou o passado vencer e que teimou em viver cada pedaço de presente. De uma Mulher que olha para o futuro com a tranquilidade de quem sabe que aqueles que partiram, não são apenas os que não ficaram.

Actualização: 28-May-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info