A Mania das Grandezas - Uma Fogueira de Vaidades

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MUNDOS

Não interessa tanto o país que somos, como o País que fomos; isto é, à sombra da glória do passado, continuamos a dourar-nos sob o sol lusitano, fingindo que os assobios são antídoto mais do que suficiente que chegue, para extirpar os males que nos afectam; mas dos quais só os outros são culpados – já falei disto várias vezes e não vale a pena repetir-me…

Estamos a chegar ao final do ano e de uma época que é, ao mesmo tempo, fraternalmente bela e malvadamente medonha; na primeira variante; pelo carinho, tolerância, amizade, irmandade, bondade e afins; e na segunda, pelo galopar à desfilada das coisas e loisas que se compram e induzem a comprar, que só interessam, verdadeiramente, ao comércio aos comerciantes e aos vendedores. Não é uma época natalícia, é uma época “comercialícia”; tudo o que de bom poderia ter, fica ofuscado pelas luzes da feira e da fogueira de vaidades em nos mergulhamos; em que nos fazem mergulhar; onde nos queimamos e deixamos queimar.

Não interessa resolver – ou, pelo menos tentar – os problemas mais gravosos de uma grande cidade, aplicando na sua solução os recursos disponíveis; sempre parcos, claro, mas pelo menos bem geridos – meninos da rua; sem-abrigo; idosos; arrumadores de carros; ruas sem meninos mas com buracos; edifícios a caírem de maduros e de velhice, esventrados, esburacados, danificados, perigosos, malfadados. Dá-se-lhes um “melhoral”, que não faz bem nem faz mal, finge-se que sim e que também, sorri-se para a câmara e para o jornal; em dentes brancos de simpatia – Pepsodente ou Colgate, não interessa – e eis aqui, senhores e senhoras, o nosso grande contributo para a redução da miséria social, da paz no mundo, da fraternidade entre os povos e dos valores da família. Temos um dos piores salários mínimos da Europa dos vinte e tais; um dos mais elevados índices de sinistralidade automóvel do mesmo universo e um dos piores hábitos alimentares do mesmo grupo – refiro apenas estes, por me parecer, que pertencem ao conjunto de factores que mais afectam a esperança média de vida no país dos assobios.

Mas também temos coisas grandes; enormes, altas, brilhantes, deslumbrantes e luzidias – e nem sequer realço nessas coisas tais, a ponte Vasco da Gama. Homem que, por ter sido um Navegador bem sucedido teve direito a pontes e torres memoriais, enquanto ao rei que mais trabalhou para isso – o sucesso dos navegadores – apenas se lhe edificou, ao fundo de uma avenida com o seu nome, um conjunto de ferros retorcidos, só possível de apreciar e de compreender pelos eleitos e entendidos em belas artes; muito cultos, instruídos e sabedores.

Com toda a dignidade que o momento mereceu, foi inaugurada a maior árvore de natal da Europa, o maior pinheiro de metal, ou o maior conjunto de tubos metálicos entrançados uns nos outros e cobertos de luzes e luzinhas de encantar – culpe-se Thomas Edison pelas luzes e não sei quem pelos “tubos pinheirais” – e eis que, partir de agora, mais de noventa por cento – estatística não comprovada – dos problemas de Lisboa, quiçá do País, ficaram solucionados. E não interessa nada quem pagou a bela obra de encantar; se foi, ou não, dinheiro da coisa pública ou privada, porque isso pouca influência tem no resultado final.

Mas fiquemos, pelo menos, com a certeza que todos os males – citadinos e não só – que não conseguem eliminar-se pela via da cura, conseguem disfarçar-se pela via da fogueira de vaidades; da hipocrisia das alturas e da mentira do momento. O dinheiro entubado naquela coisa poderia ter sido destinado a fins sociais e humanos; mas isso, que luzes e vaidades traria?

Se os organizadores e mentores da iniciativa queriam uma coisa grande e verde, mais valia um feijoeiro. Ter-se-ia gasto, apenas, uma semente de feijão; e uns quantos regadores de água!

Actualização: 28-Nov-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info