A Imortalidade; a Verdade o Esquecimento

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MUNDOS

Uma das passagens que mais gosto de citar, relativamente à imortalidade; seja da Alma ou do Ser; de outra vida depois desta; de outra forma de vida; de eternidade para sempre ou seja lá como se entenda – ou queira entender – estas coisas da crença de vida depois da morte, é a que Artur C. Clark aborda na sua belíssima obra, “2001 Odisseia no Espaço”, quando Bowman mergulhou num vazio de nada, que não era – “It’s full of stars” – para descobrir que afinal, tal “mergulho”, foi em direcção a uma chegada, deixando para trás uma partida: Bowman, renascido, era agora um novo Ser em crescimento.

Muito antes de Clark, Platão, na Teoria da Reminiscência, disse que o conhecimento adquirido é apenas conhecimento recuperado; isto é, as ideias estão na razão, mas de uma forma inata, latentes, em estado virtual. Assim sendo, já todos estivemos “lá” e já todos soubemos tudo. A diferença, a grande diferença que não nos deixa ser iguais, é a nossa capacidade de recordação relativamente àquilo que soubemos noutra vida: uns recordam-se de muita coisa e são sábios; outros recordam-se de pouca e são pessoas normais; e outros há, ainda, que não se recordando do que souberam ou esquecendo-o de novo, nem são sábios nem pessoas normais – distinguindo neste contexto que os sábios também o não são – e são, por vezes, comparados a uma espécie animal que em Miranda do Douro se pretende preservar.

Claro que o mistério permanece e não vem ao caso desmentir – desmistificar? – ou comprovar, uma teoria que em boa verdade não passa de uma crença; que acaba por dar um certo jeito e nos deixar um pouco mais sossegados quando se trata de não querermos morrer para sempre ou de pretendermos encontrar, “do outro lado”, alguns dos que já partiram. Como dizia o meu Avô, a única certeza que temos é que estamos vivos, depois disso, ainda nenhum veio cá dizer que afinal não morreu.

A vida, tal como a morte, continua repleta de mistérios; e nenhum dos sábios que sabem muito, conseguiu, até agora, esclarecer as dúvidas que permanecem.

Conhecendo a realidade do lado de cá, que poderá não passar de um estado de conveniência; e desconhecendo a irrealidade do lado de lá, que poderá não passar, também, de um mero estado de conveniência, ficamos “entalados” entre duas forças; uma porque sim e outra porque não, mantendo-nos a primeira do lado daquilo que vamos recordando e levando-nos a segunda para o lado daquilo que ainda não lembrámos ou já esquecemos, não havendo, sequer, a garantia de que quando renascermos, continuaremos a recordatória a partir do ponto de interrupção. Se renascermos, quando e como… Não querendo – “afinal quem sois vós que a tal vos atreveis?” – contrariar Platão, custa-me a crer, ter tanta dificuldade em lembrar-me daquilo que já tive conhecimento, sobretudo se a coisa pender para o lado das ciências exactas; e alguma facilidade em lembrar-me de outras, se tais pertencerem às ciências humanas. Assim sendo e entendendo-o como tal, pode dar-se razão ao ditado acerca do pior cego ser aquele que não quer ver – o pior esquecido é aquele que não quer lembrar-se? – lembrando-me, neste caso, (coisa desta vida e não de outras), de um dito da minha terra que confronta a teoria platónica e que diz, “muito esquece quem não sabe”. Mas como na minha terra, que eu me lembre, não há sábios que saibam muito e opinem sobretudo; nem, que me recorde, pensadores de renome que pensem não só sobretudo como também, porém, continuo a ziguezaguear por entre a eterna dúvida se é de certo aqui ou se incerto ali.

Para meu grande desgosto, desconsolo até, não consigo recordar-me nem lembrar-me – reminiscências demasiado longínquas –, da minha última morte nem do dia em que renasci.

Actualização: 06-Sep-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info