A Eleição do Maior de todos Nós

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MUNDOS

“Senhor, quem é o maior no Reino dos Céus”? – esta terá sido uma das perguntas que, há mais de dois mil anos, foram feitas a Jesus Cristo, por um dos seus seguidores, ávido de verdade e de informação segura. Cristo, sabedor por excelência em coisas de matéria humana, não só na terra como no Céu, terá respondido, “Em verdade te digo, aquele que se fizer pequenino como esta criança, será o maior no reino dos céus”.

Mas isto aconteceu nos tempos de Cristo. Ao que consta, hoje em dia e, também, ontem em hoje; isto é, de então para cá, não parece que tal conselho tenha sido seguido porque, cada vez mais, ao contrário do fazer-se pequenino, todos procuram atingir “fazer-se grande”. Não interessando o como, mas o fim.

A ErreTêPê, ou alguém por ela e em seu nome, teve a “ideia genial” de desafiar os Portugueses a escolherem, por votação, o maior de todos nós; isto é, de todos eles, “Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”; sabendo que Tais não vão porque, a maior parte, já foram! Fazem-se – fizeram-se – cartazes de rua; pintam-se algumas fotografias; misturam-se personalidades e feitos; combinam-se inventos e eventos e enaltecem-se saberes e fazeres, como se tudo pudesse, simplesmente, ser misturado no mesmo caldeirão, independentemente de quem fez, do que fez, porque o fez, em que época e em que contexto.

A ideia até pode parecer simpática; mas que tem o seu quê de anómala, errada e absurda – leia-se aberrante, lá isso tem –; pelo menos no meu entendimento, opinião pessoal minha, portanto.

Se tivéssemos que escolher o Maior de Portugal, essa seria uma acção a levar a cabo em áreas definidas, concretas, temáticas, nunca misturando Dom João Segundo com Santo António de Lisboa, feijões com arroz – embora arroz de feijão seja do meu agrado – ou alhos com bugalhos. Seriam sempre alguns maiores e nunca um único sozinho. Claro que não pretendo produzir crítica relativamente aos anunciados milhares – milhões? – de votantes que botaram a cruzinha na personalidade preferida; mas tão só, dizer que esta coisa toda, se mérito teve quanto à evocação da memória dos feitos que os grandes fizeram, permitindo a muita gente tomar conhecimento de tais obras valorosas que os afastaram da morte, o contrário – desmérito – teve também, relativamente ao comparativo daquilo que comparável não é.

Há muitos – e ainda bem – grandes Portugueses; gente ousada e audaz que se engrandeceu e engrandeceu o país. Todos os que foram “mostrados” merecem, de algum modo, o título de grande – embora alguns tivessem sido bem maiores que outros, que foram bem mais pequenos – mas teria sido assim tão difícil aos mentores da ideia, ter feito uma divisão por áreas temáticas, não permitindo que, por exemplo, Amália perdesse contra Florbela Espanca ou Camões contra Fernão Mendes Pinto? Ou serei eu, o perverso má-língua – mau escriba, neste contexto – que não estou a entender muito bem a grandiosidade do evento, suas implicâncias históricas, feitos, memórias e afins?

Porque muitos se fazem grandes e poucos se fazem pequeninos, glorificando o que não é ou humilhando o que não foi, esquecendo as desigualdades que estabelecem as diferenças; ou seja lá porque for, não votei na eleição do maior do Reino e da República. Fico, pelo menos, livre e de consciência tranquila – mas em Portugal é coisa que toda a gente tem – para dizer que não contribuí, para que Dom Afonso Henriques possa vir a perder contra um qualquer humorista!

Actualização: 09-Nov-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info