A Arte de Maldizer e Mal Escrever

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MUNDOS

Quando me disseram que um determinado talho, situado na cidade de Alverca do Ribatejo, ostentava na sua montra principal, um papel com dizeres, no mínimo curiosos, quis verificar com os meus próprios olhos verdes até onde é que a coisa se tornava interessante. Fui ver, li, e o papel dizia o seguinte: “vamos pegalos pelos cornos”. Assim, sem mais explicações quanto à natureza do “pegalos” e quanto ao detentor ou proprietário dos respectivos. Uma leitura mais atenta do peculiar texto, levou-me a descobrir um outro papel, colado mais abaixo, que mencionava preços de carne de vaca. Relacionando os dois papeis, fiquei sem saber se os cornos eram da vaca ou se o “pegalos” se referia ao bicho a quem a mesma botou os ditos cujos.

Cartaz curioso, também, e este de carácter permanente escrito a letras garrafais em “placard” de anúncio formal, está exposto no Porto Alto, num determinado café, ou café-restaurante, tanto faz para o caso; diz assim: “Bifanas há poeta”. Como costumo passar por este local com alguma regularidade, sempre que o faço, a cabeça levanta-se-me por instinto para ver se ainda há poeta, se ainda há bifanas ou se, simplesmente, alguém de bom senso emendou o erro; “deletou”, como alguns dizem. Ainda assim, ficaria muito melhor “deletado” do que escarrapachado de tal forma que nos leva a duvidar se dentro do café há poetas, bifanas, ou simplesmente alguém que não faz a mínima ideia do que se pretende haver por lá. Comentar o “Vende-se Andares”, é ainda tarefa mais ingrata; tantos que os há por aí, disseminados a torto e a direito sem que as mentes e as multidões sejam capazes de por ordem na coisa; no “vende-se”, entenda-se, porque quanto aos andares, não é problema de tais, “vender-se” ou “venderem-se”.

De referir, também, a história dos “Benvindos”, que encontramos frequentemente à entrada de muitas das nossas aldeias, vilas e cidades, muitas das vezes, desenhados – os “Benvindos” – a gosto, em azulejo típico da “nossa região”, com letra trabalhada a rigor, e um chafariz a salpicar quem passa, com meia dúzia de roseiras à volta. Estes casos são bem mais graves. Porque sendo de natureza pública como os demais, têm a montante, uma entidade (autárquica), cujos responsáveis deveriam, no mínimo, saber distinguir o Benvindo ou Benvinda, nome próprio, dos Bem-vindos, saudação dirigida a quem visita. E para que fique mais perceptível o comentário, montante é o oposto de jusante. A montante fica quem escreve ou mandou escrever – o emissor da mensagem; e a jusante fica quem leu – o receptor da mensagem.

Nem é preciso falar (mas falo, melhor, escrevo) sobre os cartazes patuscos, tipo, “Restaurante Típico Os Três Irmãos Grelhados na Brasa”; não por causa dos ditos rapazes, pobrezinhos, coitadinhos e desgraçados para a vida inteira, mas sim, porque a gente até percebe que o que falta ali, são apenas dois tracinhos ou, simplesmente, uma vírgula; esta coisa: “,” – o caracter do meio, obviamente!

Legisla-se sobre tanta matéria no país fundado por Dom Afonso Henriques – Dom Afonso, repito, nunca mais cometo o erro de retirar o Dom ao nosso primeiro rei –, e será que não se consegue produzir legislação em matéria de cartazes, papéis nas montras, avisos públicos e afins; de maneira a salvaguardar um bocadinho, um tudo-nada, o uso correcto na nossa língua? Quem – seja de natureza individual, colectiva, privada ou pública –, coloca na rua barbaridades e aberrações do género, não deveria ser responsabilizado pelos seus actos, que deturpam e distorcem, assim, levianamente, a Língua Portuguesa?

Actualização: 04-Jun-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info