O Monstro Cativo

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MUNDOS
Conta a lenda que ao sul da Lusitânia, onde o mar beija em ondas leves e ternas, a costa plena de areia branca e fina, estão em permanente vigilância, Hanibalis Saudosus e Marius Eternus.

Nem um nem outro se modestizaram quanto chegue, provando não só, que dos fracos não se faz história, como também, que a robustez por exaltação é bem melhor que ceder à fragilidade por humilhação.

Vivendo recatados em seu sossego, estes dois Al-habitantes de sozinhamento voluntário, tinham (e têm) dos seus tempos, a convicção de que quando abandonassem as galopadas de palavras onde cada um foi mestre na arte de pronunciamento, não apareceria no mundo outro assim. Verdade que se constata hoje em dia; não pelo que conta a lenda mas pela leitura da história.

Mas a lenda conta ainda que Saudosus e Eternus, entristecidos pelo rodopio de olhares perdidos, desciam amiúde das suas torres de vigia – cada um na sua – até ao grande salão da fortaleza que os abrigava da maresia salgada do mar que um dia se fez português. Que apenas era usado – o salão – para as conferências de alto nível e de sentido patriótico superior. À sua volta, todos prestavam sentido e até os cortinados se agitavam, em movimentos de cima para baixo, desenhando ondas como as do mar espraiado na areia azul da praia; e nunca de extremo a extremo, porque isso poderia ser entendido como um não, quando se pretendia que transmitissem sempre um sim.

O Monstro – Dizia gravemente Hanibalis, confirmado por Marius – vai tomando forma e prepotência e se não for impedido de crescer como agora o faz, até um dia a lua que é vaidosa e se gosta de pentear à luz das estrelas, se vai envergonhar de aparecer. O monstro – continuavam cada um na sua fortaleza – vai enegrecer a noite e nem o dia terá luz e até os duendes da charneca e as fadas de cabelos verdes e as libelinhas de asas doiradas, poderão jamais dançar de roda com os fogos-fátuos dos lagos da floresta.

Avôzinho, diziam as criancinhas a tremer, quando ouviam os contadores de histórias a fazer previsões tais, quais Nostradamus de outras eras, ou sabedores máximos de “Tarots” por descobrir. Porque as criancinhas – perdoe-se-lhes a santa inocência – nada mais queriam que coisas próprias da idade: brincar e saltar em volta dos lagos, de roda com os fogos-fátuos, cantando e gargalhando com as fadas de cabelos verdes, os duendes da charneca e as libelinhas de asas doiradas. Mas quando as criancinhas falavam, logo Hanibalis no seu rosto esticado de amargura e de saudade, e Marius enrugado em infinito prazo de validade, olhavam em volta abarcando os grandes e as crianças e repetiam, O monstro vai engolir tudo à sua passagem, vai erguer o longo pescoço acima das águas dos rios, das ondas do mar, por entre as árvores dos quintais e pelas janelas e portas e frestas e o seu poder não terá fim.

Depois de usarem da fala, conta ainda a lenda que todos se calavam; e os olhavam como quem via um qualquer deus imaginado em dia por nascer ou noite por inventar. E de imediato os viam subir devagar, sem sequer os degraus rangerem à sua passagem; apenas os brancos cortinados das janelas, se agitavam em ondas de cima para baixo, dizendo sempre sim, como quem aplaude sem ruídos de silêncio. E todos eles, não só as crianças, como também os grandes, logo ali combinaram dar caça ao monstro ainda cativo, que era sabido a qualquer momento se poder erguer e, impiedoso, tudo engolir à sua passagem.

Hanibalis e Marius, velhinhos de saudade, continuam na sua torre de vigia vendo o mar, recatados e orgulhosos das histórias que um dia contaram no grande salão e que, sabem-no com segurança, permitiram que as criancinhas voltassem de novo a brincar com os duendes da floresta, as fadas de cabelos verdes e as libelinhas de asas doiradas. E todos juntos cantam e dançam, de roda com os fogos-fátuos dos lagos da encantados.

Actualização: 31-Oct-2005 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info