Coisas que só as mulheres podem fazer

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MUNDOS

Foi do género conversa de café mas teve lugar à hora de almoço; assim que a terrina da sopa assentou – sem entornar gota –, na branca toalha de linho. Da mesa, obviamente!

A pessoa mais importante do grupo – em qualquer mesa há sempre alguém mais importante – disse, em jeito de pergunta e sorrindo com vontade, “Vocês sabem que vou ter um sábado inteiro para me dedicar ao lazer”? E logo todos, incluindo o narrador, se puseram de orelha fita à escuta da solene declaração que tanto gáudio parecia causar na pessoa mais importante. “Ah é”, “Pois é”. “Vou livrar-me de três mulheres num só dia”! “Eh lá, que o chefe é PA”, disse alguém mais atrevido e de afinidade mais aproximada. “Mas explica lá melhor essa”, disse outro que, não tendo tanta afinidade, também tinha alguma e por isso o tuteava. “É como digo, no próximo sábado vou até ao Alentejo e vai ser copos e borga o dia inteiro”. E depois de uma breve pausa, acrescentou, “É que a minha mulher e as minhas filhas, resolveram ir até ao jamor pintar a bandeira; estou livre”.

E pronto, estava o segredo desvendado. Foi a partir daí que começou a conversa de café, estava a sopa ainda no início.

Uns porque sim, outros porque não, alguns porque talvez. E o futebol isto e o desporto mais aquilo e a selecção etecetra e o Scolari às tantas e as bandeiras enfim e os recordes pois claro sem dúvida.

Não houve acordo quanto à matéria de facto; o futebol tem destas coisas, ao mesmo tempo que une as pessoas encarrega-se de as separar. E nem sequer é por conseguir escrever direito por cima de linhas onduladas; que por essas, ao que consta, só Um, ainda, conseguiu botar caracteres. E não eram enviesadas, eram apenas tortas.

Contudo, o assunto merece mais que algum tempo de atenção, dedicada por meia dúzia mal contada, de gatos-pingados, à hora de almoço. Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma matéria que envolve, directamente, a tão velhinha “guerra dos sexos”. E a segregação; e as diferenças; e os privilégios. Todos estes em “suponhamos”.

Inventaram o dia da mulher; muito mais por motivos de exploração comercial do que por outra coisa. Mas tanto elas, a quem é dedicado o rosáceo dia, como eles; os maridos, namorados e afins, aceitam – ou fingem aceitar – uma tão “nobre” efeméride que homenageia tão “altruísta” causa!

Mais recentemente inventaram, em Lisboa, uma corrida exclusiva para mulheres; destinada a apoiar a luta contra o cancro da mama. Esta sim, uma causa nobre; sem aspas nem nada que se pareça. Mas, pergunto eu, porque o assunto também foi discutido durante o almoço já narrado, Porque é que os homens não foram convocados; por se lhes rejeitarem as peludas pernas ou por não se acreditar nas suas vontades? Ou será que não têm relação com o assunto, anatomia excluída e nada a ver com isso? – esta pergunta já é outra…

Por fim, vem a história da bandeira, de todas a mais bela;”oh és, tão linda”. Mas esta é uma estrofe da “Mula da Cooperativa” e não vem ao caso lembrar o grande Max, que era Homem e atirou com a velha – da Ponta do Sol – de pernas para o ar…

Dois ou três dias depois, comentei com uma mulher – ficar-me-ia bem escrever uma senhora, mas acontece que ela também é mulher –, estes mesmos três temas “separatistas”; “O que é que acha disso”, perguntei, “Olhe”, respondeu-me, “Essas iniciativas são todas tão ridículas que só podem ter sido inventadas por homens”.

“Glup”…

Actualização: 25-May-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info