O Museu do Sim e Não

Explorar Sítio
MUNDOS

Para além da contestação mostrada por algumas camadas da população, devidamente divulgada pela comunicação social, recebi algumas mensagens – daquele tipo que se redirecciona a toda a gente e mais alguém – de apelo à subscrição de uma lista de protesto, quanto à criação do museu em homenagem ao Dr. António de Oliveira Salazar, estadista que geriu os destinos da Nação durante quarenta anos; quase tantos como Dom Afonso Henriques, mas nem por isso tão eficazes.

A minha reacção imediata foi apagar a mensagem – deletar como alguns dizem – e não pensar mais no assunto; não só, porque costumo apagar todas as mensagens do género sem alimentar o circuito vicioso e viciado, como também, porque acho a petição ou ideia perfeitamente ridícula. Mas não absolutamente seguro quanto à minha opinião sobre a coisa, consultei o meu círculo de apoio directo que engloba gerações distintas e menos influenciadas pelas agruras do passado ditatorial protagonizado pelo Dr. Salazar. Da pergunta perguntada, um respondeu que não, outro respondeu que sim e o outro – que é outra – respondeu que lhe era indiferente. Fiquei na mesma; nenhum dos consultados defendeu energicamente a sua posição, deixando-me com a batata quente entre unhas, para ter de consolidar, sozinho, a minha própria opinião. Assim não é justo, uma pessoa quando pede opinião, deve ser ajudado nestas coisas!

Entretanto chegou o fim-de-semana e tomei conhecimento do quase confronto que não chegou a ser, entre os do sim e os do não, apartados, como meninos mal comportados, pelas forças da ordem. Uns, porque querem preservar a memória de alguém que admiram – adoram? – muito; e os outros porque entendem que tal memória não deve ser lembrada nem preservada e muito menos idolatrada. Enquanto os primeiros gritam, em fundamentalismo português, “Viva Salazar”, os segundos apelam à lembrança da luta antifascista que levaram a cabo em defesa da liberdade e da democracia. Mas uma liberdade e democracia que, agora e por razões ideológicas, quer negar o direito à existência de um museu. Que afinal pretende ser dedicado ao Estado Novo e não apenas à sua máxima figura. A história não existe sem memória; ou, pelo menos, a primeira não pode ser interpretada sem considerar a segunda. Com ou sem museu, a história está feita e os actos praticados: os bons, os maus e os assim-assim. Está tudo escrito, não é preciso inventar nada; uns olhos vêm mais para um lado, outros olhos vêm mais para o outro. Dificilmente dois pares de olhos avistam o horizonte na mesma direcção e sentido; onde há duas cabeças, há duas sentenças. O Dr. Salazar foi quem foi; fez o que fez, o que não fez e o que não fez nem deixou fazer. Os antifascistas são quem foram e fizeram o que fizeram. Tanto o primeiro como os segundos, actuaram movidos por convicções, não é um museu que vai ajudar a esquecer um ditador ou branquear a sua memória. Numa democracia os opostos têm de conviver em sociedade respeitando ideias e ideais; nem a luta antifascista fica desvalorizada nem a memória do Dr. Salazar, glorificada. Pelo contrário, se soubermos contextualizar “A” mais “B”, e soubermos transmitir às gerações mais novas, a distinção de “A” e de “B”, não é preciso ser especialista em matemática aplicada para chegar facilmente a uma demonstração onde tudo o resto é apenas papel de embrulho, de um conteúdo que não pode ser alterado.

Melhor ainda, olhando para o país que temos; com o nível de analfabetismo que ainda existe, o fraco nível cultural e aproveitamento escolar, a mentalidade do assobio para ar e a “chico-espertice” existente, precisamos de um museu ao Estado Novo para quê? Talvez daqui por cem anos tal se justifique – ou não –, porque, por agora, ainda temos bem vivos, os vestígios de, “A Bem da Nação”.

Actualização: 22-Mar-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info