Mutilados pela Guerra; Engrandecidos pela Vida

Explorar Sítio
MUNDOS

Não tenho um conhecimento alargado sobre os mutilados de guerra; mas tenho algum. Isto é, não sendo especialista em conhecimento pós-traumático; cansaço (“stress”) de guerra e outros males causadas pelo combate que tiveram de enfrentar em defesa da Pátria, consigo – tal como a maioria das pessoas – ter uma visão e opinião pessoal sobre aqueles que, lutando pelo que acreditavam e/ ou lhes fizeram acreditar, sofrem e vivem, hoje, em permanência, com uma realidade a que tiveram de saber adaptar-se, não deixando que o tempo lhes roubasse aquilo que a má sorte, de todo, não foi capaz: A Vida.

“Era segundo-sargento miliciano, perdi uma perna em combate. Optei, ao contrário de outros, por desligar-me da vida militar, seguindo um percurso civil. Fui funcionário administrativo numa empresa de produtos químicos, reformei-me há cerca de um ano e faço parte dos órgãos sociais da ADFA. Sinto que ainda posso aprender muita coisa, mas preciso de ajuda para compreender melhor as novas tecnologias, principalmente ao nível da Internet e Correio electrónico.”

“Era oficial miliciano; e numa instrução de combate fui atingido por um rebentamento que só não me matou, por milagre. Fiquei como pode ver. Tive de educar-me a viver assim, a sobreviver assim, sem complexos de inferioridade e sempre com vontade de dar mais um passo; as pernas, pelo menos, não me faltaram. Estou aqui para fazer o curso em igualdade de circunstâncias, só lhe peço que o meu guia possa assistir”.

“Não posso aceitar o seu convite para tomar um café; mas vou dizer-lhe porquê: Era oficial miliciano e comandava, em Angola, uma patrulha que seguia – erradamente – em perseguição do inimigo pelo seu próprio trilho; sabíamos que estava errado, mas o mato era tanto que decidi aproveitar. Percorremos pouco, seguia em terceiro lugar e pisei uma mina que me cortou, de imediato, a perna esquerda; caí para o lado e fui metralhado na outra perna. Um furriel salvou-me a vida, matando o atirador que me atingira. Fiquei a sangrar, a esvair-me em sangue. O Socorrista do grupo fez o que pôde; reuniu três homens do grupo com o mesmo tipo de sangue e fez uma transfusão directa até o helicóptero chegar, cerca de quatro horas depois. Optei por seguir a carreira militar na área docente e reformei-me há dois anos, já não dou aulas; agora quero ser aluno outra vez. Ah! um dos homens que me deu sangue tinha uma variante de Hepatite, é por isso que não posso ir tomar café consigo, mas o importante foi ter sobrevivido, quero lá saber do café e das bebidas alcoólicas!”

São relatos, ao mesmo tempo, comuns e diferentes; comuns na causa, diferentes na consequência. Para voltarem a ser comuns na luta que cada um deles teve de enfrentar para não se deixar morrer antes do tempo, sabendo que nunca é tempo de morrer completamente.

No primeiro caso, o único dos três que optou pelo abandono da carreira militar, é casado, não tem filhos, é uma pessoa cheia de vida, sem complexos pela deficiência, bem disposta e com quem dá gosto conversar.

No terceiro caso, professor universitário, tem tudo aquilo que lhe “assiste por direito”: é casado, tem um filho e uma neta. Move-se com alguma dificuldade, mas vai onde vão todos os outros. Aos sessenta e cinco anos, “decidiu voltar à escola” – palavras dele – e “matricular-se” em informática. Dá gosto ver como evolui o seu desempenho no dia-a-dia.

No segundo caso, tem duas licenciaturas; Antropologia e História, é cego, tem um gancho no braço direito e no que resta da mão esquerda (sem dedos) tem um enxerto em forma de pinça que lhe dá a autonomia que a ausência de mãos impõe. Num curso de introdução às redes de informática, foi o primeiro classificado num universo de dezoito alunos.

...Relatos de vida que nos amesquinham; que nos fazem pensar!

Actualização: 07-May-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info