A Neta da Senhora de Fátima

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Ao almoço falámos sobre Vasco da Gama; a sua viagem, meandros da nomeação política, qualidades como marinheiro, como comandante e, claro, a grandiosidade e utilidade do seu feito. E chegámos a conclusões, mais ou menos de comum acordo como é de bom-tom em conversas de hora de almoço que é para não complicar o trabalho das enzimas de cada um: Dom Vasco foi muito mais comandante que marinheiro e marinheiro com Eme grande foi Bartolomeu Dias.

A seguir a Dom Vasco, falou-se de Fátima e do seu milagre, referindo uma determinada visita, em tempos, de uma senhora que se apresentou a um grupo de militares que pesquisavam informação histórica, como a neta da senhora de Fátima. Na verdade, tratava-se da neta da esposa de um major de Artilharia – neta do major, também, claro está – que, por alturas de mil novecentos e dezassete, fez um levantamento topográfico na região de Fátima. Em consequência directa desta “revelação”, foi abordada a recente notícia da despesa de milhões de euros que o santuário fez para construir uma nova basílica. Disse o responsável pelo gasto das verbas, que enfim e coisa e tal, houve por ali uma ou outra derrapagem em função de algumas alterações e trabalhos não orçamentados, mas que não era nada de grave porque o santuário só gastou as moedas que os peregrinos tinham oferecido a nossa senhora e não ficava a dever nada a ninguém. Nossa senhora é que entendeu não gastar o dinheiro em proveito próprio e assim sendo, o santuário mandou construir em homenagem um templo de acordo com o seu estatuto – comentário da exclusiva responsabilidade do narrador.

Sobre a bizarrice de alguns povos, alguém referiu o caso do senador Americano que instaurou um processo contra deus. Na verdade, para quê queixarmo-nos de, e aos intermediários, se podemos fazê-lo directamente a quem de direito máximo e detentor da marca registada? a ousadia do facto não está na entidade visada mas na forma e na intenção, o homem – senador – queixou-se de deus e não ao dito cujo. Não sabemos, ainda, se apresentou a queixa ao juiz apropriado; porque, a não ter sido a Belzebu, Lúcifer ou um dos seus “primos”, muito provavelmente a coisa morrerá por ali com a desculpa de falta de competência do tribunal para julgar a causa. Como os Portugueses sempre foram conhecidos como bons artistas na arte do desenrasca; isto é, com grande capacidade de improviso na procura de soluções momentâneas, entrámos nas anedotas da “chico-espertice”: Três padres de países diferentes, discutiam entre si a maneira de entregar a deus – que me perdoem os fiéis mais fiéis, mas não me sinto obrigado a usar “d” maiúsculo – o dinheiro proveniente das dádivas dos crentes, que entrava nas caixas-de-esmola das igrejas. Disse o padre Francês: Em França fazemos um risco no chão e atiramos as moedas ao ar; as que caírem do lado direito são pertença de deus, as que caírem do lado esquerdo são para benefício da igreja. Disse o padre Espanhol: Em Espanha fazemos de maneira diferente; desenhamos um círculo no chão e atiramos as moedas ao ar, as que caírem dentro do círculo são pertença de deus, as que caírem fora do círculo são para benefício da igreja. Por fim, disse o padre Português: Pois em Portugal fazemos de outro modo; não desenhamos nem risco nem círculo, simplesmente atiramos as moedas ao ar, as que deus apanhar são dele, as que caírem no chão, são para benefício da igreja. Ao que consta e lembrando algumas declarações, nossa senhora não conseguiu agarrar nem uma e foi tudo parar aos cofres igreja, ainda que da Trindade, Santíssima ou não.

Mas é possível que, no caso de ainda estar viva, a neta da senhora de Fátima se apresente a reclamar a sua parte. Ou o próprio deus, porque os americanos não brincam em matéria de indemnizações!

Actualização: 17-Oct-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info