O Nevoeiro e a Consciência Tranquila

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MUNDOS

O dia amanheceu nublado, cinzento, húmido, frio e desagradavelmente enfadonho; um daqueles dias em que, decididamente, não apetece sair de casa. Muito menos em fato de treino, que não era confortável por aí além e só permitia vestir, por debaixo do casaco, a tradicional camisola interior da ordem; de cor branca e de meia manga. O fato de treino era de cor azul, mas isso em nada lhe aumentava o conforto ou o aconchego contra a humidade. Inverno; finais de Fevereiro, princípios de Março.

Dada a ordem de marcha, trinta homens amanharam-se como puderam – e souberam – numa viatura TP 21; uns sentados, outros encostados e outros nem por isso. Fácil será imaginar um universo de trinta caber num espaço de vinte e um. Couberam; quando o homem quer, o homem consegue!

Era o dia das Provas de Aptidão Física; que todos eram obrigados a fazer duas vezes por ano e, depois da parte do ginásio – abdominais e elevações na trave – chegara a vez da prova de campo, o «cooper», doze minutos em corrida contínua onde um mínimo de dois mil e quatrocentos metros garantia a nota dez; o suficiente que chegava para a maioria que não era atleta.

Partida, largada, fugida; e lá vão eles, de branco vestidos, já sem o fato de treino azul, pois que de cor branca, eram também os ténis e os calções…e o nevoeiro, o qual, se não era inteiramente branco, parecia; pelo menos era opaco, um opaco de cor branca.

Atendendo à extensão da pista – aviação, quase seis quilómetros –, a carrinha TP 21, foi colocada em posição geográfica estratégica; para que os controladores, atendendo ao nevoeiro, não deixassem de ver o pessoal em prova e pudessem, assim, contar pauzinhos por cada um que passava a linha da meta. Três voltas à carrinha, era o mínimo suficientemente indispensável. Mas o nevoeiro ajudou muito!

O oficial de educação de física, nem por isso era assim tão ingénuo e, constatando a substancial melhoria de nota; em que todos ficaram muito próximos dos três mil metros, tendo alguns, até, ultrapassado em algumas centenas de metros, mandou formar o pelotão e deu a conhecer as suas desconfianças, as quais apontavam, principalmente, para dois alunos que nas provas anteriores não tinham atingido os mínimos e desta vez superaram os três mil metros. «Melhorar oitocentos metros é obra», disse ele. Como ninguém se pronunciou, nem a tal era obrigado, o oficial voltou à carga. «Bem, como ninguém me explica esta melhoria, o senhor Mário T. e o senhor Henrique V. vão repetir a prova do teste «cooper», «Eu cá não repito coija nenhuma», disse o Mário T. nos seus vinte e cinco por cento de gaguez e no português beirão que todos conheciam. «Diga senhor Mário T. não percebi», «Que já dixe, não vou repetir coija nenhuma». O Henrique V. mantinha-se calado, tal como todos os outros; cabeça baixa a ver se ninguém notava o estado de ansiedade.

Indiferente ao desafio, o oficial de educação física repetiu, «Melhorar cem metros, duzentos metros, aceito, melhorar oitocentos metros, não aceito, cheira-me a fraude, por isso os senhores que eu disse vão repetir a prova». «Eu cá estou de consxiência tranquila não vou repetir o que quer que xeja».

«Destroçar, os senhores que eu disse venham comigo».

Repetiram as provas; um chegou aos dois mil e quatrocentos metros o outro nem por isso, manteve a negativa.

Depois da prova repetida, alguns dos outros, dos que ficaram calados, perguntaram aos dois visados mais atingidos, «Pá, que é que o gajo vos disse no gabinete?» «Maix ou menox a mesma converxa, que não acreditava nas noxas provas e que consxciência tranquila era uma coisa que toda a gente tinha neste país».

Aconteceu há alguns anos, mais de dez; e todos se lembram, ainda, da história da «consxiência tranquila»: uma coisa que toda a gente tem neste país.

Pernas para correr, nem por isso, mas quanto a matéria de consciência tranquila, aí, ó da guarda que cada um tem uma.

E nem sequer há nevoeiro todos os dias!

Actualização: 22-Mar-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info