O Meu Tio; O Jeito e o Dezoito

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MUNDOS

Há uns tempos, conversei com um dos meus familiares que esteve em Moçambique na guerra colonial; é o mais novo dos irmãos e, embora não tendo sido o único a ir à tropa, foi o único a viajar no Niassa para defender o que restava do no nosso “glorioso império”. O meu tio era condutor e conduzia camiões; viaturas pesadas, por assim dizer, que é como se chamam aos camiões da tropa; os quais, se ainda hoje têm essa designação, naquela altura também tinham. De vez em quando escrevia umas cartas para a família que se chamavam aerogramas e que não eram, verdadeiramente, cartas, mas sim uns desdobráveis – e dobráveis – com a mensagem escrita no interior e os endereços do lado de fora. Chame-se mensagem ao conteúdo; na altura ainda não se utilizava termo tão requintado mas percebia-se perfeitamente a significação daquilo que se pretendia transmitir quando a minha avó dizia, “O tio Jaquim escreveu”.

O meu tio esteve em zonas de combate mas nunca combateu; conduziu camiões – viaturas, claro! – e conseguiu, sempre chegar inteiro ao PVA – Parque de Viaturas Auto. Teve sorte; outros camaradas – “colegas”, na tropa – não tiveram. Eu sei porque vi as fotografias que ele mandava; que mesmo sendo a preto e branco, mostravam perfeitamente as “Berliets” partidas, esventradas, amalgamadas e retorcidas. E não foi devido à perícia (falte de) dos condutores mas sim, por acção das minas colocadas nas picadas. Quando terminou a comissão, não tinha disparado a G3, uma única vez sequer. “Olha, para me estrear, no último dia descarreguei o carregador da G3 contra uma garrafa de cerveja em cima de um muro e não lhe consegui acertar; não tenho mesmo jeito nenhum para a guerra”.

Foi o meu tio que disse; eu tinha na altura cerca de dez anos mas lembro-me bem.

Mas se não tinha jeito para a guerra, tomou o gosto por África e, três anos depois, já como Guarda da Polícia de Segurança Pública foi para Angola. “A ver se ganho umas massas e me livro do chefe”. Ele dizia que o chefe o chateava todos os dias porque era o único polícia da Esquadra que não multava ninguém! Voltou dois anos depois, permaneceu mais dois e saiu. Continuava a não passar multas. Não tenho jeito para aquilo, disse ele.

Dedicou-se à cafetaria e à restauração até à reforma; antecipada, devido a umas dores de cabeça; as quais, se calhar, eram consequência dos tiros em África…

“Sabes, para tudo na vida é preciso ter jeito, vocação, sei lá, algo que nos ajude a fazer; não só aquilo que é preciso para garantir a sobrevivência mas também aquilo de que gostamos e para o qual nos sintamos inclinados”. Eu ouvia e ele continuava; de um lado o sobrinho mais novo, do outro o tio mais novo; a gente dava-se bem. “Para ir parar com as costas a Moçambique, não tive hipótese de escolha, mais tarde julguei que em Angola, como polícia, tomasse o gosto pelas fardas, mas não, não me dei bem”.

Isto passou-se há trinta anos, ainda na década de setenta.

Há muito menos tempo, já na “era moderna” do século actual, encontrámo-nos de novo e falámos de vocações. “Sabes, eu que não tinha jeito nenhum para ser polícia, tive de sair porque não passava multas; e para ser médico, que lida com vidas humanas, basta ter dezoito de média final para entrar na faculdade de medicina”. “A vocação não interessa nada, mas nenhum desiste”, acrescentou.

Depois falámos sobre algumas das profissões – militares e forças de segurança, por exemplo –, que exigem, para além das habilitações académicas, um “perfil de entrada”, comprovado através de condições físicas e psicológicas adequadas.

“O tio sabe que o Filipe quer ser actor; acho que ele tem jeito, mas não sei se consegue passar nas provas de aptidão vocacional”, disse eu. “Oh pá, o melhor é ele conseguir ter dezoito ou dezanove e ir para medicina ou arquitectura; aí não é preciso ter jeito, só nota alta.” Foi o meu tio que disse.

Andava de bicicleta. “De bicicleta porquê”, perguntei, “Sabes”, respondeu-me, “Há dias fui multado pela Polícia por ter o carro mal estacionado e agora, na cidade, só ando bicicleta”. “E tem jeito para isso”, perguntei a brincar, “Ainda não caí”, respondeu com uma gargalhada, e lá foi “peladando”, como dizia o meu avô...

Actualização: 11-Dec-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info