Os Oito Dias que Mudam o Mundo

Explorar Sítio
MUNDOS

O Pai Natal não existe; está provado. S. Nicolau existiu; também está provado. Um foi buscar ao outro – o primeiro, virtual, ao segundo, real – a sua generosidade e popularidade, sobretudo no que às crianças diz respeito.

Os homens – e as mulheres – começaram a servir-se de tais argumentos para, por alturas do Natal – mais uma data não provada e apenas convencionada – iniciarem uma saga aventureira pelos mundos da comercialidade e presentearem os filhos, as esposas, os maridos, os familiares, amigos, conhecidos, colegas, vizinhos, parece bem, fica bem, parece mal, fica mal, toma lá, dá cá, gastei, gastaste. Enfim, da magia suposta de acontecer, apenas se verifica a sua componente materializada. Mas por aqui não vem mal ao mundo. Muito cinismo, muita hipocrisia, muita feira de vaidades mas, não me parece que, para além disso, haja prejuízo para terceiros.

Em apenas oito dias, assiste-se a um quase paradoxo; escrevo quase, porque também não está provado que paradoxo seja; e a minha opinião não basta para produzir afirmação sobre tal em absoluto. Portanto, quase. Começando pelo Natal, a tal data convencionada sobre o nascimento de um Homem real no mundo dos homens reais, assistimos ao pleno da generosidade, da fraternidade, da entreajuda, da caridade, da irmandade – fraternidade não é bem a mesma coisa –; e dos pobrezinhos e dos sem abrigo e dos mendigos e das viúvas sozinhas e dos eremitas isolados e dos doentes coitados e das solteiras encalhadas e dos divorciados tristes e dos mal casados e dos filhos ingratos e dos pais tiranos e de tudo e de todos, sendo o tudo e todos, o tudo-todo da união e do fingir que sim, hipocritamente também. Contudo, se não se sente o amor, vive-se, pelo menos, a vontade de contrariar o ódio.

Ao sétimo dia, iniciando a contagem a partir do dia último da primeira fase festiva, aproximamo-nos do ponto alto do contraste oposto; a fase das grandezas: Hotéis, férias, neve, pousadas, champanhe, «rêveillons», fogo de artifício, passagem de ano, fim de ano, próspero ano novo e enfim, tristezas não pagam dívidas; festeje-se, beba-se, coma-se, dance-se, beba-se outra vez, coma-se de novo, dance-se mais uma roda, gaste-se, gaste-se, gaste-se…quem o tiver para assim gastar, claro! O certo é que ninguém parece lembrar-se, já, da magia e da solidariedade dos anteriores oito dias; dos coitadinhos, das crianças ranhosas e esfomeadas, dos miseráveis e dos oprimidos. Também não me parece que venha grande mal ao mundo devido a tais festanças; gasta quem pode, perde quem tem – (isto é apenas um escrito na base de um suponhamos!)

Mas uma e outra festa, parecem ter um ponto em comum: a virtualidade da data que lhes serve de base à existência. Já que, tanto o ano novo como o ano velho, não passam de meras convenções.

Puxando a brasa à minha sardinha, não resisto a transcrever uma passagem do livro MUNDOS, escrita pelo Norberto Elias, meu parceiro em tal aventura: «Ali se fazia de conta que cada um era o que não fora e possuía o que não tinha, e toda a inteligência residia numa máquina, com capacidade de raciocínio é certo, mas sem capacidade de acção…tal como Norton o era agora. E estes dois personagens, num Mundo de realidades virtuais, uma que antes não fora e outra que fora desde que a outra passara a ser, tinham-se compreendido e esperançado…»

Mas se tudo isto – data do nascimento de Cristo e contagem do tempo – se comemora, afinal, à sombra de inverdades que não chegam a ser mentiras, o que fazer e como, à nossa realidade?

Interpretá-la, obviamente, como a verdade que nos convém

Actualização: 08-Jan-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info