Um Pesadelo na Terra do Nunca

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MUNDOS

Voltou o pesadelo. Da euforia da bandeira desfraldada: à janela, no carro, no carrinho, no camião, no estádio, no avião. Em todo o lado e em toda a parte, feito em movimento uniformemente acelerado. O que quer que isso seja ou signifique, adaptado ao comportamento humano entre humanos.

Não sou jornalista – embora algumas vezes seja tomado por tal – mas gosto de passear-me pelos meandros da reportagem; espreitando conteúdos, analisando temáticas, criticando atitudes, “caçando” gralhas – e como é produtiva esta arte! – e, de vez em quando, opinar segundo as minhas emoções; onde e sempre que me julgar capaz; mesmo sem ser perguntado. E julgo-me capaz, não como especialista deste ou daquele assunto, (não sou especialista em coisa alguma) mas como utilizador da informação em geral, como consumidor exigente que sou. Ou como me considero!

Voltámos ao pesadelo. Das vitórias preanunciadas e das pretensas, pesadíssimas, extensas e repetitivas “reportagens” das nossas – deles – televisões. Se algum leitor, de entre aqueles que fazem o favor de ler este escrito, souber e quiser explicar-me onde está o jornalismo naquele tipo de reportagens, eu agradeço. Com muita humildade, façam, pois, o favor, esclareçam-me!

“Os jogadores dormiram neste hotel que tem um átrio e uma recepção; almoçaram neste restaurante que tem mesas e cadeiras; levantaram-se de manhã, porque lá diz o ditado, deitar cedo e cedo erguer; beberam café e comeram torradas de pão integral amanteigadas levemente; tomaram duche com água de luso sem borbulhas; saíram por aquela porta que abre num sentido e fecha no outro; entraram pela outra porta que fecha no outro e abre num sentido; espreitaram à janela para ver a multidão e acenaram e sorriram com dentes brancos sem tártaro; falaram ao telefone com as esposas e namoradas e afins; voltaram a almoçar e desta vez consumiram beringelas com cenouras e outros vegetais; voltaram a jantar, mas agora foi arroz de cenoura sem pato; saíram pela mesma porta por onde entraram e nem deram autógrafos a quem os esperava no aeroporto e por causa disso esta senhora está muito zangada – e estava –; espreitaram de novo à janela e voltaram sorrir; chegada a noite foram caçar pardais de telhado mas também apanharam gambozinos e admiraram os pirilampos; e depois sorriram de satisfação, choraram de emoção e penteram-se com jeitinho mesmo sem gel; utilizaram a casa de banho duas vezes – ou três conforme os casos –; entraram naquele autocarro que tem rodas e janelas; foram treinar, vieram do treino e agora partiram para o Luxemburgo mas nós nem conseguimos ver a cauda do avião”.

“Isto”, é jornalismo?

O pesadelo, é bom de ver, não é propriamente o facto da selecção participar num mundial de futebol onde se esperam resultados nunca antes alcançados. Porque o facto, em si, se não levado ao histerismo ou à alienação colectiva de mentes e de multidões, é dignificante. Não é só ser poeta que é ser mais alto; mas também, saber ser e estar como português, num universo em que os outros estão como nacionalidade própria; lutando pela sua dignificação através de pontapés artísticos na bola.

O pesadelo é outro. O pesadelo é a histeria; o fazer de conta que nada mais interessa; o fingir que se ama uma bandeira porque há razão para ser amada de dois em dois anos. O pesadelo é ter de ouvir e ver “reportagens” maquiavélicas; apelando – não bastavam os anúncios de telemóveis? – à parte mais estúpida e cretina que há em nós. O pesadelo é o apelo constante ao supérfluo, ao consumo de tecnologia para este “mundial e não perca tal”.

O pesadelo é tudo o que não faz parte do sonho.

Bem sei que posso optar por canais e estações de televisão; e de rádio; ou de jornais.

Bem sei que tenho liberdade de opção.

Talvez, quem sabe, juntar-me ao Peter Pan e partir para a Terra do Nunca.

Ou será que é lá – cá – que estou?

Actualização: 15-Jun-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info