A Primeira Vez

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MUNDOS

A primeira vez aconteceu na oficina de serralharia e mecânica da aldeia, propriedade do Florêncio. O Florêncio dedicava-se ao arranjo dos motores de rega, de bicicletas a pedal, de motorizadas, de tractores, de charruas e de outras coisas mais onde houvesse uma chapa para cortar ou soldar; o Florêncio era um artista e arranjava tudo.

Naquele dia a Aldeia entardeceu ao som de uma voz desconhecida que se fazia ouvir através de um alto-falante quase gigante, encavalitado no tecto de uma carrinha de focinho comprido e traseira curta, quase já sem marca e modelo, esquecida no tempo das coisas novas e mergulhada no passado das velharias. Mas andava; conduzida sabiamente pelas ruas esburacadas de uma Aldeia que só muitos anos mais tarde viria a conhecer o alcatrão e guardar no espaço longínquo das recordações ténues, o aglomerado de buracos que então faziam soluçar, pelos solavancos da velha carripana, o condutor que, para além das naturais preocupações viárias, tinha de falar a anunciação da novidade que pela vez primeira trazia à Aldeia.

“Vagabundos ao Luar”, dizia repetidas vezes o condutor anunciador, num tal entusiasmo e intensidade sonora vomitados pela corneta falante, que rapidamente arrancou ao canto do lume das casas baixas de cada ruela e vereda, cada um dos seus habitantes, ávidos de coisas novas, curiosos pela novidade sonora e entusiasmados pela ida ao cinema assim que souberam que de tal se tratava. “Uma das maiores histórias de Pancadaria”, continuava, no mesmo nível de entusiasmo, o insistente condutor cinéfilo, animatógrafo ou lá como se chamava ao homem que naquele dia resolveu tirar do sossego; novos, velhos, pouco novos e pouco velhos, muito novos e muito velhos, cães, gatos, cabras, ovelhas e demais espécimes com audição bastante, porque nenhum animal ficou insensível à gritaria que ecoava pelo vale.

No barracão onde funcionava a oficina, Florêncio e a mulher (dele) atarefavam-se a arrumar o espaço, encostando à parede o que podia ser encostado e colocando na rua o que podia ficar ao ar livre. Com engenho e arte, conseguir-se-iam umas boas dezenas de metros quadrados, suficientes que chegassem para se arrumarem, uns mais acima e outros mais abaixo; uns sentados e outros de pé; uns às cavalitas e outros ao colo, cada um dos espectadores para assistir a um género de sessão de cinema ambulante, que alguns anos mais tarde as gentes da cidade, copiando o apropriado da hora, baptizaram como “soárrê”. Bem ou mal contados – nunca houve verificação de rigor –, amanharam-se na oficina que naquele dia fez de sala de cinema, mais de duzentos seres pagantes de bilhete, tantos quantos os quase todos que aderiram à novidade, sendo que aos outros animais, que também saíram à rua para ouvir a anunciação do bem cinéfilo, não lhes foi permitida entrada e é por isso, consta-se na Aldeia, que ainda hoje, não entram cães no cinema; podem ir outros animais mas convenientemente disfarçados de figura humana, mesmo não sendo pessoa.

O potente gerador a gasóleo começou aos soluços cerca de meia hora antes do início da sessão, iluminando o estendal de luzes que enfeitava a entrada da improvisada sala de estendendo-se agrafado às vigas, face-a-face com as placas de lusalite que faziam as vezes de telhas no barracão-oficina do Florêncio arranjador de coisas. Já os ávidos espectadores da grande estreia se acotovelavam uns contra os outros e contra eles mesmos – muitas vezes as pessoas agridem-se a elas próprias – quando o homem do cinema chegou com uma máquina às costas, partida em duas partes, que rapidamente se tornaram numa só, por artes de manha e encaixe, dobradiças e fichas de encaixar – umas nas outras, claro está!

Por mim está tudo pronto, disse o Florêncio, numa espécie de vaidade serralheira mecânica, de mãos ainda sujadas de óleo e gasóleo e desperdício encardido de petróleo dos motores de rega – o Florêncio parecia que nunca lavava as mãos e se lavava não limpava as unhas, mas isso em nada influenciou a luz gerada pela máquina que continuava a soluçar barulhos, protões e electrões ou lá como se chamam agora os componentes da energia eléctrica.

Finalmente iluminou-se o lençol que a mulher do Florêncio estendera contra a parede a fazer de ecrã de projecção e calaram-se as vozes, os sussurros e as piadas sem graça. Vamos começar a sessão, disse o senhor do alto-falante e lá apareceram, em cores garridas, os “Vagabundos ao Luar”, com a belíssima Brigitte Bardot, emoldurada num vestido vermelho que não chegou a despir porque naquele tempo não se tiravam vestidos em oficinas de serralharia.

Actualização: 17-Oct-2007 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info