O Tempo Não Volta para Trás

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MUNDOS
É um animal sem alma; uma qualquer coisa que nos envolve, que nos transporta para não sei onde e que nos retarda a ausência do sempre eterno.

Ao sentir saudade, apelamos à intervenção do tempo ido; à neblina amargada; ao vento esguio; às recordações choradas; à nostalgia desditosa; ao passado inerte; ao que já foi sem nunca ter sido; ao que é e não será nunca; ao que foi sem acontecer.

Tenho nostalgia de ti, ouvi um dia alguém dizer. Carreguei a frase; meditei no dito; embrulhei o conceito; olhei para mim que era o ti; procurei os tis da nostalgia e senti-me sozinho, com saudade, sem vontade, com idade.

Vontade de navegar pelos dias, pelas agonias, pelas noites frias; sem tempo nem alento nem talento. É como olhar o rio, o escuro, o frio, o arrepio, as águas revoltas, envoltas, revoadas, tardias, fechadas, quebradas, marcadas, sofridas; mentidas. Olham-se as margens e vê-se a corrente e a areia; mas muitas vezes sem água nem rio.

Tempo, idade, saudade. Paramos no caminho, avistamos o horizonte; com a mão na fronte, o olhar no bolso, o brilho sem vida, a lágrima caída; esmorecida, amolecida, entristecida, chorada, magoada, ensanguentada.

Continuamos por aí; subindo outeiros, descobrindo encostas, resvalando em colinas, acreditando em sorrisos, decalcando crenças, coleccionando lembranças, escutando gritos, fingindo murmúrios, saboreando choros, ensaiando arrependimentos, alheando atitudes; embriagados em mares temperados de oceanos e vendavais de arrepios e desfiladeiros de sonhos e escarpados de ilusões e páginas de multidões e gaivotas desnorteadas e rochas partidas em ondas desfeitas e desaguadas em praias intensas de só negro ver.

Brumando os que partiram, pelo tempo ido, pelo amor sofrido, pelo calor perdido, pelas mãos, pelas palavras, pelo carinho; desencontrado do caminho, carreiro vadio de giestas sombrias, apagado em moitas dispersas, secas e frias.

À espera: de um sol queimado de cinzento; de uma colmeia de cores ardida em verde fel; de um falso azul ofuscado em frágil céu; de um céu diluído em baço olhar; de um olhar afogueado em multidão; de uma multidão isolada em nada só.

O pó na estrada; o dia apagado; a noite nascida; as estrelas esbatidas; o luar de Julho embaciado; os anos de tão longe; a saudade de nunca mais; as vozes de não falar; os sons de não ouvir; a raiva de não saber; o poder de não conseguir; a vontade de emudecer; a distância de continuar.

Hoje, amanhã, um dia, qualquer dia; qualquer tempo inquieto, qualquer hora tardia, qualquer momento fugaz, qualquer sopro de paixão, num momento de ilusão, em tempo de não, anoitecido em solidão.

Tenho nostalgia de ti. Ao fim do dia, a meio da vida; no crepúsculo da viagem, junto ao Tejo; longe do sonho, colado às rugas; pisando a margem, nublando o delírio; à beira da fonte, caído na estrada.

Tempo a mais, entardecido, saudoso da madrugada.

 

Actualização: 31-Oct-2005 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info