A Velhice é um Posto

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Assim se diz na tropa. Não um posto da cadeia hierárquica nem da cadeia de comando mas no estatuto pessoal; de cada um. Quanto mais velho – velhinho – mais importância tem e mais realce assume; o próprio perante os outros e os outros perante o próprio. Não confundir com o próximo, que esse é um conceito muito mais alargado e filosófico que o de velhice, esta sem ser, verdadeiramente, de velho.

Velhos são os trapos, diz o povo; velhos nem os trapos, dizem alguns que ao povo pertencendo, teimam em alterar os ditos genéricos e globais que todos conhecem. Não confundir, também, velho, conceito de idade, com velhice, designação de importância. O primeiro induz uma ideia de uso usado; de desactualização; de inadequação; de não modernidade; de estagnação; de rugas enrugadas e, quiçá, de bloqueio ao modernismo. O segundo induz uma ideia de experiência; de experimentação; de sabedoria; de sapiência; de conhecimento e, porque não, de alguma paternidade perante aqueles que, não tendo atingindo, ainda, o seu estatuto, um dia lá chegarão.

O primeiro – velho – está usado e pronto (ou quase) a deitar fora. O segundo – velhice – está ainda operacional, pronto a usar e dele abusar-se. Eis, então, só por esta destrinça, a diferença de conceitos!

A velhice é um posto; e pronto! pelo menos na tropa. Na “sociedade civil”, os seus associados que a caracterizem como muito bem entenderem e souberem. Isto se considerarmos correcto embrulhar o termo – sociedade civil – entre aspas, mas numa opinião pessoal (minha), nem com elas nem com aproximação das respectivas – aspas –, a sociedade é só uma e nada mais. Em todos fazendo parte dela, lá se vão as aspas. E vão muito bem.

Conta-se – diz a lenda – que certo rei, velho, já muito velho, (não confundir com velhice porque o rei não era militar) saudoso do contacto com os seus súbditos, saiu um dia à rua montado no seu cavalo branco mas sem o trajo real nem a coroa de reinação, para testar o grau de popularidade junto do seu povo. Isto é, verificar se, disfarçado de associado da “sociedade civil” (afinal as aspas dão jeito) era ou não, ainda reconhecido e admirado por todas as gentes e se ainda reinava em toda a parte.

Então, garboso em cima do seu cavalo, a passo, ia respondendo com sorrisos rasgados aos cumprimentos do povo; afinal, ainda era conhecido e, apesar da sua idade, todos sabiam quem era.

Afastou-se, contudo, talvez sem dar por tal, de caminhos mais povoados e densos de pessoas. Às tantas deu por si no meio numa pequena aldeola onde apenas viu uma criança a brincar: um rapazinho de calções rotos, pés encardidos e descalços, cabelo desgrenhado e mãos sujas. Mas não estava ranhoso, como é costume caracterizarem-se tais crianças.

E o rei passou, garboso, como até li, sem que o rapaz parasse de chapinhar na lama, ou na areia ou na terra, tanto faz; não lhe deu importância e pronto. Estranhando, mais a indiferença que o desplante, o rei decidiu voltar atrás e passar de novo frente à criancinha, dando-lhe uma nova oportunidade de reconhecimento; mas o miúdo, nada; nem novas nem mandadas. E o rei, voltando, retornou e voltou a retornar. Até que, à quarta ou quinta vez de tanto voltear o cavalo em tão curto espaço decidiu-se a perguntar, Olha lá, oh miúdo, tu não me conheces, Senhor, disse a criança, meio envergonhada porque não era hábito botar fala com cavaleiros – ali todos os habitantes da aldeola andavam a pé. Tu sabes quem eu sou, insistiu o rei.

Sei, és um velho! disse a criança.
E nem sequer falou em velhice.

Actualização: 31-Oct-2005 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info