O Privilégio de Ser Velho

Explorar Sítio
MUNDOS

Há alguns anos atrás o Fernando convidou-me para um almoço; fazíamos parte de uma lista de discussão luso-brasileira, promovida por um Sítio ligado às coisas da Lusofonia. Apesar de termos mantido vários contactos paralelos relativamente ao fórum de discussão, ainda não nos conhecíamos pessoalmente. Aceitei o convite; nestas coisas é como diz o outro, para comer e beber aceita-se sempre. Falámos de muitas coisas e entre elas, claro, de mulheres, assunto sobre o qual parecíamos estar de acordo quanto aos usos, costumes e afins. A palavras tantas, diz o Fernando algo do género: “É por gostar tanto delas que já vou na quarta”. Eu engoli em seco, sem saber o que dizer e como argumentar a minha singularidade contra a pluralidade dele. “Tem vinte e sete anos”, acrescentou ainda o desalmado como tiro de misericórdia contra a minha estupefacção. Continuei mudo, calado e quedo, quase envergonhado por ter de dizer que eu, não senhor, ainda nem tinha passado da primeira. “Não dizes nada António”, “Fernando, sinceramente, não sei o que hei dizer-te, isso é um assunto que só a ti diz respeito”, respondi, tentando ganhar tempo para reordenar as ideias em matéria de desactualização “casalar”. Mas acabei por perguntar, “As outras morreram todas, morreram algumas, ou foram, simplesmente, divórcios”? “Nada disso, estão todas vivas, mas casamento e divórcio foi só com a primeira, as outras foram ajuntamentos e esta, agora, é a que está a durar mais tempo, já vai em quatro anos”. Fazendo contas de cabeça, concluí que o dito cujo tinha dito anda cá que és minha, à respectiva, quando ela tinha vinte e três anos; teria ele na altura, cinquenta e três. Trinta anos de diferença! Que se mantinham; naquela data ela contava os vinte e sete que me haviam sido informados e ele os cinquenta e sete que eu já sabia.

Mas afinal o Fernando é apenas um caso entre muitos; um entre mil ou um entre milhões, tanto faz. A verdade é que pertence ao grupo de pessoas – deles mais velhos que se juntam a elas mais novas e delas menos novas que se juntam a eles menos velhos – que não conseguem, não querem ou não aprenderam a aceitar a idade; esta coisa temporal que nos faz ficar mais velhos, mais rugosos, mais carecas, mais chatos, menos pacientes; mas também, mais sensatos, mais sábios, mais sabedores e, porque não, mais capazes como homens e mulheres, porque um bom curso de vida só é possível de tirar a longo prazo; e aqui, decididamente, o ensinamento intensivo não funciona. O pior – ou o melhor para alguns e algumas – é que ficam também mais gulosos por receitas que anseiam consumir, numa prova não provada – digo eu – de que o ajuntamento com opostos de diferente escalão etário, faz brotar as águas profundas da fonte da eterna juventude.

Há, contudo, outras variantes ao acasalamento, para – tentar – enganar a velhice: o uso do plástico; ou da plástica, “O que for”, conforme diz um amigo meu, “Desde que seja” – O que for desde que seja, diz ele. E neste último caso, manda-se quem de direito, competência e jeito, cortar, esticar, retirar, colocar, aumentar, reduzir, redimensionar, tirar, pôr, tudo misturado num rapa-põe-tira-deixa, que chega a não deixar nada daquilo que foi criado, tirado e rapado.

A velhice, se não é, completamente, como se diz na tropa, um posto, é quase; e constitui no mínimo um estatuto e um privilégio. Um estatuto consolidado pela vida e pela vivência; e um privilégio provado pela sobrevivência. E em maior privilégio se torna, à medida que o estatuto da vivência aumenta. Pensando deste modo e exprimindo-o desta maneira, não compreendo a vergonha e o receio de muitas pessoas aceitarem a idade que têm, tentando enganar e enganar-se, com artefactos mais ou menos requintados que apenas atenuam – atenuam mesmo? – a evidência em si: o envelhecimento. Há ainda os que dizem que a velhice está na alma e não no corpo; que uma pessoa pode ser velha com espírito jovem ou jovem com espírito velho; nada mais enganador! não confundamos as coisas; “Ambos os dois” devem caminhar lado-a-lado: o espírito e o corpo. E devem aceitar-se tal como são: o corpo envelhecido e o espírito adequado. Claro que há excepções, mas essas servem para confirmar a regra, dizem os livros. E ter setenta, oitenta, noventa anos, é, ou não é, um privilégio? Quantos de nós chegaremos lá? Quantos daqueles que agora troçam dos “kotas” – acho que é assim que se escrevinha esta palavra moderna – conseguirão um dia atingir o estatuto de velho, seja ele envelhecido ou não?

Às vezes perguntam-me, “E tu, não me digas que não gostavas de…”. Pois é, tal como escreveu o grande Camões, “Mais vale experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não puder experimentá-lo”. Camões tinha razão; quanto ao resto, cada um que se amanhe!

Actualização: 19-Oct-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info