A Glória e os Viajantes do Tempo

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MUNDOS

Não sou simpatizante de estados de espírito miserabilistas. Nem saudosistas, derrotistas, pessimistas ou anarquistas. Não é com o agitar de bandeiras à miséria das coisas que entendemos como más, que os problemas se resolvem; nem os nossos nem os do País. Que também são nossos, obviamente.
Não constitui solução, o acto de recordar em permanência o glorioso passado daqueles que Fizeram, erguendo ao céu a lança imortal duma linha de coragem e de sabedoria, que não se reconhece como válida nos homens e nas mulheres de hoje. É verdade que temos quase novecentos anos de história, mas convém, na medida certa, juntar-lhe a necessária memória para que não se esqueça, também,  tudo o que de mal foi feito e o que de bem ficou por fazer.
Derrotismo porquê e para quê? Para grasnar lamentações soltas e vadias, semeadas por aí “ao deus dará” sem dar o que quer que seja?! A verdade – pelo menos tal como a entendo – é que de nada adianta o sentimento de derrota quando queremos lutar por vitória. Lembrar apenas a glória do passado esquecendo as potencialidades do presente, parece-me algo paradoxal, próprio daqueles que não conhecendo, nem uma nem outra realidade, passeiam-se por neblinas de faz de conta, simulando aquilo que conhecem mas que nunca viveram, e aquilo que vivem e que nunca conheceram.
Pessimistas, a sério, são aqueles que duvidam que havendo fomes se possam comer as pedras, porque nessa altura nem tais haverá para mastigação. Com estes não adianta argumentar, porque o diálogo fica suprimido à partida; onde um diz, “Nunca” e outro diz, “Quem sabe…”, raramente se conclui em concordância. Talvez seja por isso que – dizem outros povos – os portugueses sorriem pouco e riem ainda menos.
Anarquistas, são os que defendem o tudo no meio do nada, ou o nada envolvido em tudo; isto é, não sabem o que querem, apenas tomam gosto pela maledicência, essa arte malvada que tão sabiamente tem sido incrementada na vivência humana. Também é termo usado por aqueles e aquelas que não concordando com certos regimes, os apelidam de tal; quero dizer, não sendo democrata como eu quero, - ele, cada um - é “anarca”!
Há também os “missionários da monarquia”, quase “primos” dos miserabilistas; defendem a glória sem memória e o passado sem história. Vivem num mundo habitado por reis e por rainhas; e por príncipes e por princesas, rodeados de azul e cor-de-rosa, onde os rouxinóis entardecem cânticos de louvor, secundados por toutinegras reais, que pousam mansamente nos ombros e na sapiência daqueles que já nada podem, ou nunca puderam enquanto tal. O rei representa todos como um só, enquanto o presidente, sendo eleito, só pode representar aqueles que o escolheram. “Assim seja”; mas… e a questão do voto, da livre escolha, da imposição por sucessão, não conta para nada?
O que parece ser verdade é que, quem mais se assume como defensor da moral e dos bons costumes é, ao mesmo tempo, quem mais oposição mostra contra os ideais opostos. Raramente se vêm republicanos a desancar na monarquia; mas, por outro lado, é com frequência que assistimos a verdadeiros “arraiais de pancadaria” contra a república e seus representantes, em actos tão próximos da “santa inquisição”, como a areia está do mar. E o que é ainda mais estranho, é que o fazem sem qualquer tipo de pudor, num acto que constitui arrogância e prepotência pura. Entendo eu, que nunca será por esta via que, eventualmente, se “conquistarão” apoiantes para a coroa do herdeiro, ou para o herdeiro da coroa!
Os povos têm história e memória; ideais, grandezas, fracassos, tormentas, vitórias e empreendimentos.
É verdade que tivemos bons Reis, grandes estadistas e de coragem invulgar, a começar, lembre-se, por Dom Afonso Henriques. Mas, também, que, “Alguns traidores houve algumas vezes”.
Portugal não é só a glória do passado; que passou, tem de ser, também, a esperança do futuro; que ainda não chegou. E para isso, apenas é preciso que os homens nasçam e morram grandes; o resto são enfeites!

Actualização: 21-Jul-2006 . Comentários / sugestőes: ajsbranco@mundos.info